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O significado da partilha de bens e o dízimo na vida comunitária
Partilhar é o comportamento capaz de dividir em várias partes algo que me pertence
17 junho, 2021 por
O significado da partilha de bens e o dízimo na vida comunitária
Micheli Ferreira
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O modo de compreender o dízimo deve passar pelo que diz a Palavra de Deus a respeito da partilha. Partilha é a operação que consiste em dividir em partes; repartição. Ato de dividir em partes ou porções. Portanto, partilhar é o comportamento capaz de dividir em várias partes algo que me pertence. O gesto de partilha exige gratuidade, conhecimento social, desprendimento de si, capacidade de abrir-se ao outro, alteridade.

É da responsabilidade dos fiéis a sustentação das obras de apostolado e as obras sociais (a caridade) da Igreja. No Documento n° 100 (CNBB) insiste na administração paroquial também das ofertas e campanhas no sentido de partilha como sinal da comunhão de bens. Os bispos insistem que “a implantação do dízimo garanta o seu sentido comunitário: ‘Deus ama a quem dá com alegria’ (2Cor 9,7). É a alegria de doar com liberdade e consciência de ser um sinal de partilha. Evite-se, entretanto, o sentido de taxa ou mensalidade e a ideia de retribuição, segundo a qual é preciso doar para receber a bênção”.

Palavra revelada e partilha

Em vários Profetas do Antigo Testamento, existia uma verdadeira compreensão da dimensão político-social da religião, onde entenderemos a ira dos profetas contra os pecados sociais e a denúncia da violação do direito da justiça. Pregavam a necessidade da percepção da dimensão político-social como constitutivo do caráter religioso. A violação da justiça quebra a Aliança. Esta é a contribuição dos profetas em termos de teologia do pecado.

A mística da refeição, conforme o relato da multiplicação dos pães narrado por João 6,1-15, convida, convoca e se coloca na vida do ser humano como fator determinante de sociabilidade, de valores de partilha e equilíbrios sociais, enfim, de humanização. Nela e com ela aprendemos a acolher o outro como dom. Aprendemos a nos doar, a partilhar, a receber, a escutar e a falar, a contemplar o outro em sua singularidade. A mesa-refeição é também o lugar onde aprendemos e nos comprometemos em partilhar com os outros também o pão de cada dia que garante o sustento, que alimenta o corpo e o social.

Jesus e a partilha

Jesus é o primeiro responsável, mas quer partilhar com os seus. Isso exige a participação de todos. Ele toma os pães e da graças por cinco pães e dois peixes diante de mais de cinco mil pessoas famintas. É a gratidão sobre o pouco que faz o muito. É pouco, mas é dom de Deus, e dom pode-se multiplicar, pois o pão partilhado tem alcance abundante.

No texto da multiplicação dos pães de Mateus 15,29-37 nos mostra as necessidades do mundo de hoje, nos sensibiliza para elas e nos pergunta: “Quantos pães tendes?” Pede-nos para pormos à disposição de todos o pouco que temos, pede-nos disponibilidade, para continuar a sua obra de salvação, de libertação.

Na passagem da multiplicação dos pães narrada por Marcos, retrata o local que Jesus encontra a multidão como um deserto, porém, a dádiva da compaixão, “Ele foi tomado de compaixão” (Mc 6,34) o “lugar deserto” (Mc 6,31) se torna “grama (relva) verde (vida)” (Mc 6,39). Onde a compaixão está presente o deserto (símbolo de aridez, infecundidade) se transforma em relva (símbolo de vida, de fecundidade). A compaixão é a disposição para sincronizar o nosso coração com o do irmão, sentir o que sente e transformar o que nele é morte em vida.

Reflexão conclusiva

A exigência da caridade e partilha dos bens é urgente segundo Papa Francisco: “não percamos tempo a imaginar os pobres do futuro, é suficiente que recordemos os pobres de hoje, que poucos anos têm para viver nesta terra e não podem continuar a esperar. Por isso, para além de uma leal solidariedade entre as gerações, há que reafirmar a urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade entre os indivíduos da mesma geração” (FRANCISCO, Laudato sì, 162).

A força da generosidade promove a partilha e a solidariedade na vida pessoal e na vida comunitária. Uma força que precisa ser semeada em todos os cantos da nossa sociedade, especialmente nas famílias, nas escolas, nas comunidades cristãs, etc. Especialmente nestes ambientes, que são sementeiras indispensáveis na formação de uma sociedade com relacionamentos mais solidários, mais generosos e mais fraternos promovendo a partilha dos bens.

Generosidade na partilha

A prática da generosidade em nosso meio é uma atividade difícil porque a atual cultura social incentiva demais o egoísmo através das competições profissionais. O jovem é preparado, na escola, não para saber e adquirir valores humanos e sociais, em particular o da partilha, mas para fazer o vestibular, cursar uma boa faculdade e ganhar dinheiro. É preparado, em resumo, não para conviver e partilhar, mas para competir e ganhar. O outro não é irmão ou irmã, é um competidor, concorrente. Na “moral de escolas para vestibular”, quem ganha tem o direito de ficar com os lucros só para si. É a derrota da generosidade e o triunfo do egoísmo e da divisão de classes.

Que nossas ações pastorais, ao menos elas, sejam motivadoras da generosidade da partilha em nosso contexto social, escolar e familiar.

Referência

COELHO, Mário Marcelo. Partilha de bens e questões morais. TQ. Teologia em Questão. v.28, p.69 – 90, 2015.

Pe. Mário Marcelo Coelho é Mestre em zootecnia pela Universidade Federal de Lavras (MG), padre Mário é também licenciado em Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque (SC) e bacharel em Teologia pela PUC-RJ. Mestre em Teologia Prática pelo Centro Universitário Assunção (SP). Doutor em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana de Roma/Itália. Autor e assessor na área de Bioética e Teologia Moral.

 

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