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A Pastoral do Dízimo e a crise econômica
22 junho, 2021 por
A Pastoral do Dízimo e a crise econômica
Micheli Ferreira
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A palavra crise do latim “crisis”, do grego “krísis” significa: ato de separar, decisão, julgamento, evento ou momento decisivo. Alguns exemplos:

  1. MEDICINA: mudança súbita ou agravamento que sobrevêm no curso de uma doença aguda;

  2. PSICOLOGIA: manifestação súbita de um estado emocional (ex: crise de choro, crise de pânico).

  3. ECONOMIA: conjuntura ou momento perigoso, difícil ou decisivo. Falta de alguma coisa importante (ex: crise de emprego, crise na bolsa de valores). Embargo na marcha regular dos negócios. Desacordo ou perturbação que obriga a instituição ou organismo a recompor-se ou demitir-se.

Vivemos um momento de crise em várias áreas da sociedade: guerras, fome, corrupção, valores. Na Igreja: escândalos em várias áreas. E contra a Igreja: constantemente somos atacados pelos meios de comunicação.

São quatro os principais fatores que estão na base de todas as crises que enfrentamos:

  1. INDIVIDUALISMO: tudo se é vivido de forma individual e subjetiva inclusive a fé.

  2. CONSUMISMO: para se estar na moda, para se sentir gente é preciso gastar, comprar… Os objetos nascem e morrem num piscar de olhos.

  3. PRAZER: vivemos na sociedade do poder onde o lema é: “faz-se o que se gosta e evita-se o que não se gosta”.

  4. PODER: a sociedade capitalista que vivemos vai seguir o seguinte lema: “Você precisa vencer. Você tem que ser o primeiro”.

Tudo isto que vivemos, a Igreja desde o Documento de Aparecida em 2005, vai dizer que se trata de uma “mudança de época”, que causa na igreja uma “crise de fé” em todas as suas áreas, percebida nos seguintes sintomas: desânimo, falta de comprometimento, falta de tempo para trabalhar para as coisas de Deus, e, entre tantos outros sintomas, a falta de uma consciência do Dízimo.

Desde que tudo isso começou é muito frequente ouvirmos dos padres e dos agentes de pastoral do dízimo a seguinte frase: “O DÍZIMO DE NOSSA PARÓQUIA CAIU”.

Nossas festas antigamente eram em prol de uma benfeitoria para a Paróquia (ex: compra do som, pintura). Hoje o que entra de receita não cobre as despesas em muitas Paróquias pelo Brasil e as festas têm que salvar o caixa da Paróquia.

A intenção deste artigo é apresentar pistas para atuação de nossos agentes da Pastoral do Dízimo em nossas Paróquias. E, a primeira coisa que precisamos entender dentro deste tema é o que a nossa Igreja diz o que é o Dízimo em nossa fé e o que é a Pastoral do Dízimo. Para isto nossos Bispos nos deram de presente o Documento 106 – O Dízimo na Comunidade de fé: orientações e propostas.

Documento 106 da CNBB

  1. O QUE É O DÍZIMO: o Dízimo é uma contribuição sistemática e periódica dos fiéis, por meio da qual cada comunidade assume corresponsavelmente sua sustentação e a Igreja. Ele pressupõe pessoas evangelizadas e comprometidas com a evangelização.

Dimensões do Dízimo

                Religiosa: tem a ver com a relação do cristão com Deus. Essa dimensão insere o Dízimo no âmbito da espiritualidade cristã.
                Eclesial: é a consciência de ser membro da Igreja, pela qual o fiel é corresponsável pela manutenção da comunidade.
                Missionária: ajuda mútua às Comunidades mais carentes.
                Caritativa: ajuda aos pobres.

                1. A PASTORAL DO DÍZIMO: é a ação eclesial que tem por finalidade motivar, planejar, organizar e executar iniciativas para implantação e funcionamento do Dízimo e acompanhar os membros da comunidade no que diz respeito a sua colaboração.

                O que fica claro nestes pontos que o Documento 106 da CNBB nos indica é que o primeiro passo para superarmos essa crise é que se não vermos e trabalharmos o Dízimo como uma dimensão da vida espiritual do cristão, não chegaremos a lugar nenhum.

                Dízimo é questão de fé!

                Dízimo é questão de conversão, de mudança de mentalidade e de coração que atinge o bolso. Enquanto o bolso não é atingido, ainda não existe uma conversão concreta.

                Passos concretos para trabalhar a dimensão espiritual do Dízimo

                Consciência da diferença entre a economia do mundo e a economia do reino de Deus

                O termo grego para “economia” é “oikonomia”. Siginifica administração da casa e da família. É o conjunto de normas e regras que visam a administração dos bens.

                A Economia do mundo segue a lógica do “capitalismo neo-liberal” onde as normas e regras visam um único objetivo: trabalhar – lucrar – guardar – investir – trabalhar mais – lucrar mais – guardar mais …
                Nesse mundo não há espaço para perder, dar, partilhar. Pois o que é vitorioso, que tem sucesso é aquele que acumula. Sempre somos informados pelos meios de comunicação com as listas dos mais ricos do mundo. Apresentados como os grandes vitoriosos do deste mundo.

                Infelizmente a lógica da Economia do mundo entrou em nossos corações e nos impede de vivermos a lógica da ECONOMIA DO REINO.

                A economia do reino

                “A Economia do Reino é a Providência de Deus. Os membros da Comunidade tenham em mente que tudo de que dispõem é dom de Deus: sua inteligência, seus talentos, sua capacidade de trabalho e os bens que ela gera. Esses sejam vistos como o pão nosso que, a cada dia, recebemos das mãos do Senhor. Ele é o verdadeiro dono de tudo nós somos seus administradores, e por isso temos, de acordo com este chamado, a consciência de que a administração destes bens deve ser realizada segundo o espírito e a mentalidade do Evangelho” (Cf. O segredo da Divina Providência, p. 113).

                A Economia do Reino segue a seguinte lógica:

                • O Pai provê através da criação, que confia ao homem, seu filho;

                • O homem transforma a criação com seu trabalho;

                • O homem põe em comum – faz Comunhão de Bens – de todos os frutos do seu trabalho e todos os bens a ele confiados pelo Pai através da porcentagem simbólica;

                • A porcentagem da Comunhão de Bens é destinada a que não haja necessidades espirituais e nem materiais na Família do Pai do Céu que são as nossas Comunidades.

                • Portanto, na Economia do Reino, saímos da lógica do lucro, do acumulo para a partilha para doação, para a Comunhão de Bens.

                O Papa Francisco, na Carta Encíclica Laudato Si, n. 66, vai nos propor:

                “passar do consumo ao sacrifício, da avidez à generosidade, do desperdício à capacidade de partilha, numa ascese que ‘significa aprender a dar, e não simplesmente renunciar’”.

                E numa Conferência no Mosteiro de Utstein, Noroega, no dia 23 de junho de 2013, vai dizer que para fazer essa passagem é preciso a conversão:

                “A mudança do ser humano, a conversão é um modo de amar, de passar pouco a pouco do que eu quero àquilo de o mundo de Deus precisa. É libertação do medo, da avidez, da dependência”.

                Critérios para viver a economia do reino

                1. Olhos espirituais

                “O cristão do século XXI ou será místico, ou não será nada” (Karl Hanner – Teólogo do século XX).
                Para a Palavra de Deus, o coração não é a sede dos sentimentos como acreditam em nossa linguagem metafórica de hoje. O coração é, para o homem bíblico, a sede das decisões.

                Para tomar decisões acertadas é preciso ter “olhos espirituais”. Assim como o tigre que passa horas observando a sua presa para poder dar o bote certo, já que ele é pesado, se errar o bote, fica sem comer”. Se não tivermos “olhos espirituais” sempre vamos errar o bote.

                “Ao administrarmos os bens que o Senhor nos confiou, evitemos confiar na lógica humana, que pode nos levar ao engano. Aparentemente, ao lidar com dinheiro e bens, estamos nos relacionando com coisas visíveis e palpáveis, mais “concretas”, menos “espirituais”. Entretanto, o Reino, assim como tudo o que lhe diz respeito, não é visível aos olhos da carne, mas somente aos do coração, aos do espírito. Além disso somos chamados a nos relacionar com os bens como um meio, não como um fim. Transformar meios em fim levaria a idolatria. Os idolatras tornam-se semelhantes aos seus próprios ídolos: não veem, não ouvem, não se movem!” (Cf. O segredo da Divina Providência, p.203).

                2. Vencer o medo 

                “À noite achava-se a barca no meio do lago e ele, a sós, em terra. Vendo-os se fatigarem em remar, sendo-lhes o vento contrário, foi ter com eles pela quarta vigília da noite, andando por cima do mar e fez como se fosse passar ao lado deles. À vista de Jesus, caminhando sobre o mar, pensaram que fosse um fantasma e gritaram; pois todos os viram e se assustaram. Mas ele logo lhes falou: ‘Tranquilizai-vos, sou eu, não vos assusteis!’ E subiu a barca junto deles, e o vento cessou” (Mc 6, 47-51).

                O medo nos faz pensar que: as ondas são altas demais para nós, iremos morrer, iremos nos afligir na solidão do mal que nos cerca.

                As críticas, as chacotas, as palavras de ironia e maldição e até bem-intencionadas palavras de conselho nos trazem o medo de estarmos errados.

                A mídia nos insufla o medo de transformar a famigerada crise em um ser todo poderoso, com vida própria, tal como um dragão saído das profundezas da terra a nos tentar engolir.

                O medo gera então em nós a atitude de “querer nos precaver”, de reter o dinheiro destinado à partilha, de não fazer a Comunhão de Bens de tudo e não nos darmos todos por inteiro. E pior: inspirados encontramos um milhão de justificativas para isso.

                3. Fidelidade ao valor a ser consagrado, partilhado 

                Para vencer o medo, que gera essa atitude de reter, de não consagrar a porcentagem com a qual nos comprometemos, temos que ter fidelidade. Dízimo é amor e amor não se parcela e nem se dá pela metade, muito menos aos poucos: Um pai não pode dizer ao filho: “Vou guardar um pouco desse abraço para amanhã”. A mãe ao beijá-lo dizer: “Quero te beijar menos hoje para guardar um pouco dos meus beijos para te dar amanhã”. A esposa ou esposo não podem dizer: “Vamos guardar um pouco desse amor para outro dia”.

                Quando se fala de amor, não se fala de parcialidade, mas de totalidade.

                4. Vencer a confusão

                A confusão turva o nosso raciocínio como um redemoinho no mar e nos faz inseguros, angustiados e especialmente desconfiados com relação à Divina Providência, a Economia do Reino de Deus.
                Quanta confusão há no meio de nós!!

                Para acabar com a confusão é preciso:

                • Saber que a Palavra de Deus e o Magistério da Igreja orientam: não falamos de nós mesmos, falamos em nome de Deus e da Igreja;

                • Regras claras e bem definidas;

                • Agentes da Pastoral do Dízimo bem formados falando a mesma língua.

                5. Vencer a sedução

                A sedução engana nossos olhos, nossa percepção e nosso raciocínio. Assim que trabalha o mágico, com seus movimentos e truques nos ilude e nos faz enxergar somente o aspecto que lhe for mais conveniente.
                A sedução entra aqui na porcentagem que destinamos a Comunhão de Bens. Tenho a sensação que a sedução pega muitos de nossos irmãos de caminhada. Que provavelmente podem dar mais do que dão, mas iludidos não consagram a Deus o que realmente podem dar.

                Para vencer a sedução é preciso:

                • Saber onde o dinheiro do dízimo está sendo aplicado;

                • Saber a importância do dízimo para o crescimento espiritual e material da comunidade.

                • “O que os olhos não veem, o coração não sente”. E se o coração não sente ele não age!

                6. Cuidado com a falsa providência 

                A falsa providência é aquele pensamento que atinge as pessoas quando querem fazer de seu ministério, da sua ação pastoral o dízimo.

                Na Economia do Reino não se pode barganhar com o Pai. Não se pode esconder, reter o dinheiro com a falsa e mentirosa doação do trabalho. Isto não é Dízimo é barganha! Chega a soar quase ao ato do “mercenário” que faz do seu trabalho um dinheiro.

                Para acabar com a falsa providência é preciso:

                • Formar bem os agentes de Pastoral sobre o Dízimo;

                • O Dízimo não deve ser mais uma Pastoral na Comunidade e sim fazer parte de todas as Pastorais da Paróquia.

                7. Cuidado com a “estabilidade sem percalços” 

                A Economia do mundo vai dizer que é possível o uso dos bens de forma totalmente tranquila, totalmente estável, sem variações e sem percalços. E ainda cria em nós a sensação de que isso é fruto do amor do Pai. Fazendo-nos mais uma vez pensar como os judeus na época de Jesus: “O rico é a imagem de Deus, enquanto o pobre, aquele que passa necessidade, é um amaldiçoado”.

                Ora, como tudo na vida, também quanto aos bens, há sempre estreita relação entre “os tempos e os bens”. Há várias passagens na Bíblia que nos falam disso. A mais conhecida é:

                “Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu. Tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar a planta. (…) Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de gemer, e tempo de bailar” (Ecle 3, 1-2.4).

                A busca desta “estabilidade sem percalços” é um perigo para a Economia do Reino. Pois, leva-nos a pensar que Deus deseja o mal e, sadicamente “o providencia”! Ela nos faz pensar que Deus é o culpado do porque as coisas não são “tranquilas” e “estáveis”, sem percalços.

                8. Cuidar com a teologia da prosperidade

                As seitas que anunciam a teologia da prosperidade parecem “tirar” dinheiro dos fiéis com a promessa de que Deus lhes dará o que precisam e o que querem se eles derem dinheiro e bens a Deus.

                O grande mal da teologia da prosperidade é que tal pregação e sua prática acabam por escarnecer da Comunhão de Bens, como está nos Evangelhos, em Atos dos Apóstolos e nas Epístolas. Escarnecem dessa vivência evangélica encarada com tanta seriedade pelos discípulos de Jesus e por nossas Comunidades e tão vivamente orientada pela Doutrina Social da Igreja.

                O que tal pregação causou em nossas Comunidades:

                • A desconfiança de que se quer o dinheiro do povo;

                • A dificuldade das pessoas entenderem o Dízimo como vivencia radical do Evangelho, e como gratuidade do amor;

                • Resistência da parte dos padres de falar do Dízimo.

                9. Vencer o “Mundanismo espiritual” 

                “Mas existe também um ateísmo prático, que é um viver só para os próprios interesses, para as coisas terrenas” (BENTO XVI, Audiência Geral, 27 de novembro de 2013).

                “O mundanismo espiritual, que se esconde por detrás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor a Igreja é buscar, em vez da Glória do Senhor, a glória humana e o bem estar pessoal (…) É uma maneira sútil de procurar os próprios interesses, não os interesses de Cristo” (PAPA FRANCISCO, EG, n. 93).

                O “mundanismo espiritual” está presente em nossas comunidades quando percebemos que:

                • Pessoas consagram o Dízimo quando dá;

                • Pessoas consagram o Dízimo quando o padre faz o que elas gostam;

                • Pessoas deixam de consagrar o Dízimo pois o padre foi transferido;

                • Pessoas deixam de consagrar o Dízimo em vista de um projeto pessoal (viagem, reforma da casa, compra de um bem) …

                Enfim, sempre que buscamos a Igreja só para nosso “bem-estar” e não o de toda a Comunidade estamos sob o impacto do “mundanismo espiritual”.

                Conclusão

                A economia do mundo sempre estará em crise. E assim, se seguirmos em nossas famílias e na Família do Pai que são nossas Paróquias e Comunidades, também estaremos em crise.
                Para superar a crise da economia do mundo é preciso entrar na lógica da Economia do Reino que segue a lógica do Amor.

                E o Amor é: paciente, bondoso, não tem inveja, não é orgulhoso; não é arrogante, nem escandaloso, não busca seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor; não se alegra com a injustiça, se rejubila com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O Amor jamais acabará. (1Cor 13, 4-8)

                Pe. Wagner Aparecido Scarponi é da comunidade Adoração e Missão, possui Pós-Graduação em Espiritualidade, pela Faculdade Vicentina, Ecônomo Geral da Comunidade Adoração e Missão, e Formador Local dos leigos da Comunidade Adoração e Missão, em São José dos Campos-SP.

                 

                A Pastoral do Dízimo e a crise econômica
                Micheli Ferreira
                22 junho, 2021
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