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Exerça seu espírito de liderança e seja um gestor ou agente motivado
4 maio, 2021 por
Exerça seu espírito de liderança e seja um gestor ou agente motivado
Micheli Ferreira
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Neste texto apresento alguns aspectos básicos sobre Motivação e Liderança na linha da Gestão Paroquial como fonte de equilíbrio pessoal nas variadas formas de relacionamentos que vamos construindo ao longo de nossas jornadas também nos contextos paroquiais e pastorais. Gestores e agentes estão desafiados constantemente a formação permanente. Marcos 10, 35-45, onde Tiago e João, os filhos de Zebedeu, pedem lugares ao lado do “trono” do futuro rei, é um texto que se revela paradigmático para Gestores Paroquiais e seus desafios de fomentar lideranças, de si mesmos e de outros nos contextos atuais. É curioso e ao mesmo tempo interessante o fato de que, quando queremos chegar a determinados fins, nós imediatamente nos preparamos selecionando alguns itens tais como: foco em conseguir certos objetivos para alcançar determinados resultados; assumir comportamentos e reações apropriadas que nos permitam chegar lá, etc. E, quando assim fazemos, dizemos que estamos motivados para ou que somos impelidos a, impulsionados para...

Motivação: o que é isto? 

É uma espécie de força interna que surge, emerge, regula e sustenta as nossas ações mais importantes. E a motivação só pode ser estudada e captada pelos efeitos que produz, ou seja, pelas reações dos comportamentos. Isso porque os comportamentos que sempre reaparecem e persistem supõem uma causa, uma motivação. Assim como os comportamentos, as reações são muito diferentes em si mesmas e nas pessoas, e é por isso que as motivações são variadas e difíceis de serem classificadas.

As motivações podem surgir como uma força que impulsiona o indivíduo, grupos ou instituições a fazer coisas, a ter comportamentos que ele(s) não quer(em); alguns desses comportamentos, às vezes, quase que irracionais, impulsivos, ou pelo menos, não-livres. Podem surgir como uma súbita manifestação de atividade a partir da percepção de certos acontecimentos, como por exemplo, a fuga de um perigo.

Nestes casos a pessoa não tem consciência, ou pelo menos consciência clara, de sua motivação. Por outro lado, há comportamentos nos quais a pessoa tem perfeita consciência dos objetivos e meios que vai empregar (ações) para atingi-los. Sua ação é coerente, persistente, controlada, dirigida e eficaz. O que importa é que nós sempre temos motivos; sempre somos motivados por algo, mas nem sempre sabemos qual é a motivação que está por trás de nossos comportamentos, de nossas reações.

Há, pois, motivações conscientes e inconscientes. A grande diferença entre o comportamento humano e os animais é exatamente a motivação: no homem, o comportamento é motivado, orientado para um fim, visa a objetivos. Assim, o Homem Motivado busca meios apropriados; os Objetivos impulsionam para ações especificadas e os Motivos podem ser acionados por necessidades, por impulsos ou por valores humanos maiores (Capacidade de Autotranscendência, cf. FRANKL, Viktor). Visto por este ângulo, a Motivação é um estado consciente e inconsciente de sentir-se impulsionado, onde se manifestam os motivos que têm por objetivo a redução de uma tensão causada pela necessidade e/ou uma força que busca a satisfação das necessidades. Quanto mais forte for a tensão, mais intensa a motivação.

Tipos de motivos em ações:  

Segundo ARNOLD (p.25-27, 1960) e depois ROKEACH (p.45-60, 1968) existem 5 motivos fundamentais (básicos):

O amor: tem como missão (objetivo) ser aceito, afirmar-se, amar os outros.

Proteção ou procura de aconchego: traz a ideia de pertencer a um grupo (família, país, religião, a própria humanidade).

Independência: capacidade de tomar decisões próprias e pessoais, capacidade de assumir responsabilidades que correspondam a estas opções.

Social: motivações para aceitar e viver em grupo: familiar, escolar, profissional, social; dar valor a este grupo, participar e desempenhar funções nele.

Autoestima: valorizar-se; ter apreço a si mesmo; valorizar os próprios comportamentos e desempenhos.

Liderança: tópicos essenciais para gestão paroquial 

Nossa Sociedade Pós-Moderna (BAUMAN, p.33, 1998) que alguns sociólogos e teólogos já chamam de Sociedade Pós-Cristã (BLANK, p.22, 2006) nos desafia a integrar vários aspectos das orientações e das ações humanas. Assim, para homens e mulheres de hoje, motivação e liderança consistem em transformar o conteúdo figural e comportamental de qualquer experiência numa realidade que se harmonize com o mundo interior (realidade interior) da pessoa. Isto é, integrar internamente todos os níveis: fisiológico, psicológico, intelectual/emocional, social, religioso/moral, espiritual.

A partir de minha experiência, considero que uma pessoa só poderá ser considerada líder se, pela sua personalidade, for capaz de realizar duas coisas ao mesmo tempo: dirigir um grupo social e ter a participação espontânea de seu grupo. Cada líder é um tipo específico, com características bem próprias. Contudo podem se obter algumas linhas comuns que permitem certa sistematização. Vou destacar três tipos de liderança que tenho observado:

A Liderança AUTOCRÁTICA: onde o líder baseia sua atuação na obediência, no poder. Trata os demais como subordinados, dando ordens que devem ser cumpridas sem discussão. Geralmente age assim reproduzindo atitudes de seus educadores ou porque foi criado com liberdade excessiva e acostumou-se a mandar desde cedo, inclusive nos pais. O líder autocrático provoca em geral revolta nas pessoas ou uma passividade completa que pode ser expressa em “É melhor fazer o que ele quer”, “Não adianta discutir”...

A Liderança “LAISSEZ-FAIRE” (francês): em português quer dizer “deixar fazer”. O lema deste tipo de líder é “deixar como está para ver como é que fica”. Em geral esse líder é uma pessoa insegura, que tem receio de assumir responsabilidades. Este tipo de liderança dispersa forças, perde tempo em discussões, tornando-se improdutiva.

A Liderança DEMOCRÁTICA: é a mais evoluída das etapas da arte de orientar. O líder procura orientar com a cooperação, a participação espontânea e a boa vontade de seus colaboradores. Considera o grupo mais capacitado em resolver problemas do que ele sozinho. Respeita o ser humano e crê nele. Consegue a cooperação do grupo pela sua competência, paciência, tolerância e honestidade de propósitos.

Os gestores paroquiais e pastorais poderiam se perguntar: em qual destas lideranças eu me encontro? Será que posso dar passos mais dinâmicos em direção a uma liderança pessoal e grupal mais firme, nutridora, promotora de novas possibilidades?

Sabemos pelas pesquisas interacionais com grupos e sistemas que, para que o grupo realmente funcione satisfatoriamente, é preciso que seus integrantes tenham: certa independência; sejam reconhecidos como tais; tenham objetivos em comum. O trabalho em equipe é um trabalho de grupo com alto desempenho, onde seu potencial geralmente é grande e precisa ser bem explorado e administrado, pois necessita obter uma participação mais objetiva, alcançando altos estágios de desempenho, ou seja, ultrapassando os modos tradicionais.

Inspirado em pronunciamentos recentes do Papa Francisco e em anotações que fiz de algumas aulas que tive com um dos maiores filósofos clássicos brasileiros, Dr. Moacyr C. Empinotti, quero destacar os 4 pilares da Liderança em contextos pastorais e paroquiais:

  1. O Ser-Exemplo na vida: o ditado popular latino que diz verba movent, exempla trahunt (as palavras comovem, os exemplos arrastam) sintetiza e ressalta o valor da conduta pessoal do líder. A coerência de vida suscita imitadores. O exemplo possui força decisiva.

  2. O Ser-Fiel na missão: o líder autêntico crê firmemente no que faz. É a primeira condição para obtenção de um resultado satisfatório. Um adágio diz: “pouca inteligência impulsionada por um coração apaixonado, vai mais longe do que um gênio a serviço de uma alma fria”.

  3. O Ser-Espírito de decisão e de iniciativa: o exercício de capacidade de decisão é essencial para o líder. A iniciativa assumida com decisão expressa segurança de orientação e estabelece um clima de confiança, propício à colaboração e harmonia, capaz de superar todos os obstáculos.

  4. O Ser-Respeitoso da dignidade de todos os homens e cada homem: a força da palavra, dos gestos do líder, marca profundamente a alma dos seres. A ironia, a cólera, o rancor do líder é como a flecha que quanto de mais alto cair, mais fere. Saber conduzir, às vezes mandar, orientar, ter o senso da oportunidade e o manuseio correto e delicado da palavra são forças de incalculável valor de coesão e ação na liderança.

Motivação e Liderança consistem em harmonizar, dar sentido, significação às próprias experiências de acordo com a realidade interna da pessoa. Para esta integração é necessário que se estabeleça uma dialética entre vivências pessoais e as experiências, os acontecimentos, os fatos, as coisas, as palavras, em busca da unidade. O desenvolvimento normal, equilibrado, a integração da personalidade, não se produz sem o conhecimento de si mesmo e menos ainda pelo recalque, mas sim pela harmonização de todos os nossos aspectos, tanto no ponto de vista Constitutivo (estrutural) quanto no Operativo (funcional, dinâmico).

Conhecer-se dinamicamente é importante: para poder canalizar, orientar o próprio desenvolvimento; para poder construir positivamente a própria personalidade no sentido de integrar nossa realidade prevenindo futuros desajustes.

Conclusões

Dar uma olhada mais de perto nos elementos motivacionais e de liderança como fizemos pode contribuir para refinar aspectos importantes de nossas relações interpessoais em todos os seus níveis. O caminho que percorremos sugere que tenhamos posturas mais dinâmicas para o autoconhecimento, a autodescoberta, a autoaceitação e a autocompreensão. Uma vez aberto tal caminho, não há volta possível, sem que profundas modificações pessoais tenham sido iniciadas. Como dizem os poetas: “É só subindo à montanha, que podemos contemplar amplamente o vale e a planície”. Bem, uma vez que subimos à montanha e contemplamos o vale e a planície do entorno de nossas vidas e relacionamentos, ao descermos “de lá” jamais veremos os contextos vitais da mesma forma que víamos antes. Abrimos o caminho. Faço votos que suas percepções sobre o tema tenham se ampliado e que elas possam sempre provocar iniciativas motivadoras cheias de ações e de perspectivas integrais. Boa empreitada pessoal.

Referências

AGUIRRE, Angel (Ed.). Los 60 conceptos clave de La antropologia cultural. Madrid; Barcelona; Mexico: Daimon, 1982.

ARNOLD, M. B. Emotion and Personality. New York: Columbia Univ, 1960.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Tradução: Mauro Gama e Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

BLANK, Renold J. Ovelha ou Protagonista? A Igreja e a nova autonomia do laicato no século 21. São Paulo: Paulus, 2006.

GOTHCHALK, Carlos Humberto M. Impulso Essencial: Tenha como incentivo um gestor paroquial como promotor contínuo de mudanças. REVISTA PARÓQUIAS & CASAS RELIGIOSAS, Aparecida, p.42-43, 01 jun.2015.

GOTHCHALK, Carlos Humberto M. Neurose Coletiva: como entender as situações limites na convivência humana para o trabalho em aconselhamento pastoral. REVISTA PARÓQUIAS & CASAS RELIGIOSAS, Aparecida, p.26-27, 01 mar.2015.

GOTHCHALK, Carlos Humberto M. Memórias de uma travessia delicada! As barreias podem ser superadas.... JORNAL IN FOCO, Indaiatuba, SP, v.11, p.06, 16 ago.2008.

GOTHCHALK, Carlos Humberto M. Psychological, psychiatry and parapsychological perspectives. In: WOLFHORST, Ingo (Org.). SPIRITS, Ancestors and Healing: A Global Challenge to the Church. 1.ed.Geneva: The Lutheran World Federation, p.18-19, 2006.

ROKEACH, M. Belief, Attitudes and Values. A Theory of Organization and Change. São Francisco: Jossey-Bass, 1968.

Carlos Humberto Mendes Gothchalk é Mestre em Teologia Prática na Área do Aconselhamento Pastoral (Faculdades EST, São Leopoldo/RS). Especialista em Teologia na Área da Psicologia e Aconselhamento Pastoral (Faculdades EST). Bacharel e Licenciado em Teologia (PUCRS, Porto Alegre/RS). Terapeuta Holístico com Clínica Particular. Especialista em Tratamento e Cuidado de Pessoas em Crises, Pessoais, de Casais e Família, Dependentes Químicos. Hipnoterapeuta Ericksoniano. Colaborador da Pastoral Nacional da Sobriedade (CNBB). Motivador de Grupos Diversos. Autor dos livros: “Parar de Fumar é Possível” (Ed. A Partilha, 2015) e “Aprendendo a lidar com fenômenos incomuns” (Ed. Sinodal, 2005). Membro Fundador do Comitê Estadual para Promoção de Ambientes Livres do Tabaco (CEPALT-SP). Foi Coordenador do Programa de Controle e Tratamento de Tabaco no Palácio dos Bandeirantes, Sede do Governo Paulista (2004-2008). 

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