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A Igreja Católica e a Prática Inclusiva
Este artigo tem como objetivo discutir práticas inclusivas adotadas pela Igreja Católica e os impactos de tais práticas no que diz respeito aos religiosos
27 julho, 2021 por
A Igreja Católica e a Prática Inclusiva
Micheli Ferreira
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Uma abordagem filosófica e sociológica permite afirmar que o ser humano depende de suas interações sociais. Assim, a comunicação e a cultura estão, de alguma forma, conectadas e moldam o desenvolvimento social, político e cultura dos indivíduos.

Além disso, a importância da comunicação é ratificada pelas transformações que ocorreram no mundo ao longo dos séculos, transformações estas que impactaram as diferentes manifestações culturais, as formas de linguagem, dentre outros fatores que têm relação direta com o desenvolvimento do ser.

No que tange ao âmbito religioso, especificamente a Igreja Católica, é importante destacar que, ao se relacionar com o mundo, esta Instituição passa pelas mais diversas esferas, não somente a religiosa, mas também a cultural, a artística, a política e a social.

Isto posto, o intuito deste trabalho é trazer à baila uma discussão referente às práticas inclusivas adotadas pela Igreja Católica e os impactos de tais práticas no que diz respeito aos religiosos.

Neste contexto, este artigo se propõe, por meio de uma pesquisa qualitativa de cunho descritivo e interpretativo (STAKE, 2016) a explorar alguns aspectos relacionados à inclusão social praticada pela Igreja Católica, especialmente, no que diz respeito aos fiéis surdos. Todas as argumentações estão pautadas em documentos vigentes e naquilo que já há registrado na literatura da área.


A Igreja Católica e o processo de inclusão 

Atualmente, o público da Igreja Católico é mais restrito e específico comparado há algumas décadas, uma vez que esta, conforme afirmam Sofiati e Moreira (2018), perdeu um grande número de fiéis. Ainda assim, faz-se necessário ressaltar que a mensagem de evangelização precisa chegar ao alcance de todos os públicos, mesmo aqueles que não pertencem aos apriscos da Igreja Católica.

Logo, a linguagem e a forma de se trabalhar com a comunicação na Igreja[1] devem ser universais.

A libertação é antes de tudo e principalmente libertação da escravidão radical do pecado. Seu objetivo e seu termo é a liberdade dos filhos de Deus, que é dom da graça. Ela exige, por uma consequência lógica, a libertação de muitas outras escravidões, de ordem cultural, econômica, social e política, que, em última análise, derivam todas do pecado e constituem outros tantos obstáculos que impedem os homens de viver segundo a própria dignidade. Discernir com clareza o que é fundamental e o que faz parte das consequências, é condição indispensável para uma reflexão teológica sobre a libertação (RATZINGER, 1984, on-line).

Com esse ideal presente nas novas doutrinas e ideias que surgem com o passar dos anos, a globalização também trouxe uma certa ilusão de libertação, permitindo aos indivíduos uma acomodação maior e uma certa desvinculação da fé, partindo da busca pelos seus próprios princípios, o que contraria as ideias da Igreja Católica em relação a verdadeira libertação, o que torna ainda mais imperiosa a necessidade de a Igreja adotar práticas comunicativas que abarquem o maior número de pessoas possível.

Além disso, a sociedade está em constante transformação, sendo que tais transformações têm impacto direto em muitas dimensões que vão além da religiosa, como a política, ideológica, ética, moral, social, cultural, educacional, dentre várias outras.

Assim sendo, dada a complexidade da sociedade e a necessidade de os sujeitos serem nela inseridos de forma integral e plena, faz-se necessário que a Igreja caracterize-se como um ambiente que, de alguma maneira, dê conta de tais transformações oportunizando aos fiéis a integração desejada. Vale ressaltar que já existem, na literatura, diferentes teorias que evidenciam o processo comunicativo é importante para a inclusão dos sujeitos em quaisquer que seja o âmbito abordado (JESUS, 2018).

Desta forma, para que a Igreja esteja apta a alcançar seu objetivo de instituição inclusiva, é necessário que esta lide adequadamente com diferentes sujeitos, sendo capaz de atender suas diferentes necessidades.

No âmbito religioso, a Educação Inclusiva se relaciona diretamente com as práticas pastorais, especialmente as práticas catequéticas e os diferentes ministérios da Igreja incluindo-se no que a literatura denomina de Evangelização Inclusiva (PESSOTTO; RESENDE, 2019).

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De acordo com os autores supracitados, a Evangelização Inclusiva pode ser definida como:

Uma ação educacional humanística e democrática que acolhe os fiéis deficientes da Igreja. Trata-se de uma ação amorosa, mas não piedosa, que recebe o sujeito em sua singularidade e particularidades, objetivando o seu crescimento, sua satisfação pessoal e, principalmente, sua inserção social no seio da Igreja (PESSOTTO; RESENDE, 2019, p. 7).

Isto posto, fica evidente que a prática da Evangelização Inclusiva é algo necessário de ser adotado pela Igreja de modo que a Palavra Deus possa atingir a todos, inclusive aqueles que possuem maiores limitações. Sobre tais práticas, são várias as que podem ser elencadas e que já são adotadas em várias instituições religiosas, por exemplo, adaptações físicas nos ambientes, impressão de folhetos em braile e a tradução simultânea das missas em libras (Língua Brasileira de Sinais).

Dado o escopo do presente texto, o foco das discussões posteriores estará justamente no processo inclusivo dos fiéis surdos da Igreja Católica, conforme é apresentado na sequência.


O uso de libras como Prática Inclusiva na Igreja Católica

PcD é um acrônimo para pessoas com deficiência e é utilizado para se referir a pessoas com limitações permanentes (por exemplo, pessoas com deficiência visual, auditiva, física ou intelectual).

As limitações são consideradas permanentes quando o indivíduo nasce com as mesmas ou ainda quando estas são adquiridas ao longo da vida (por exemplo, em acidentes ou como resultado de alguma enfermidade). Além disso, não há cura para tal restrição e, consequentemente, o indivíduo precisa adaptar-se à situação.

Tempos atrás, as pessoas que apresentavam tais restrições eram denominadas “portadoras de deficiência”, no entanto, tal nomenclatura não é mais utilizada desde a adoção do termo PcD na Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência das Nações Unidas, em 2006, em que, a partir de então, convencionou-se que, ao nos referirmos a estas pessoas devemos utilizar este termo (ARAÚJO; ALVES, 2017).

Mas até então, a educação e, consequentemente, a religião eram direitos apenas garantidos às pessoas consideradas “normais”, sendo as pessoas com deficiência sempre vítimas de preconceitos e historicamente desvalorizadas. Nas diferentes instituições, uma abordagem específica para este grupo de sujeitos, inicialmente era somente ofertada pelas instituições especializadas, por exemplos as Associações de Pais e Amigos Excepcionais (APAE) e, com o passar do tempo discussões relacionadas à inclusão começaram a surgir na literatura acadêmica educacional.

Considerando as limitações permanentes, conforme discutido anteriormente, vale destacar, assim como o faz Fonseca (2015), que algumas dificuldades podem estar relacionadas a diversos fatores, sendo esta uma discussão muito frutífera no campo da educação. Por exemplo, ao discutir este assunto, o autor supracitado listou motivos que podem estar relacionados à dificuldade de aprendizagem do conteúdo escolar, por exemplo,:

[...] ausência de fundamentos básicos, falta de aptidão, problemas emocionais, ensino inapropriado, inteligência geral, capacidades especiais, facilitação verbal ou ainda variáveis psiconeurológicas (FONSECA, 1995, p. 217).

De forma análoga, Mantoan (2016) afirma que um dos fatores que podem fazer com que o processo de aprendizagem seja prejudicado é o fato de que os assuntos a serem apreendidos nas instituições de ensino requerem um alto grau de abstração e compreensão dos estudantes que podem ser prejudicados ou potencializados com o processo comunicativo e com a maneira que este processo ocorre.

É importante destacar ainda que, no âmbito religioso, essas dificuldades de aprendizagem são reproduzidas, por exemplo, nas práticas catequéticas e, por isso, não devem ser negligenciadas pela Igreja.

Neste mesmo sentido, Ohlweiler (2016, p. 107) ainda observa que a manifestação de uma dificuldade de interação também pode estar associada a “[...] alterações das funções sensoriais, doenças crônicas, transtornos psiquiátricos, deficiência mental e doenças neurológicas”, o que vai justamente ao encontro das teorias que relacionam algumas deficiências com determinadas dificuldades.

Desta maneira, identificada uma deficiência do sujeito, a Instituição, enquanto órgão de acolhimento, tem a função de intervir no processo de abordagem deste sujeito buscando estratégias para que uma inclusão efetiva seja possibilitada ao mesmo.

Assim, paralelo à questão das dificuldades de aprendizagem está a inclusão de fiéis com deficiência no ambiente religioso. Sobre a inclusão, Mantoan (2016) discute o processo de inclusão afirmando que tal discussão cria ainda inúmeras e infindáveis polêmicas, provocando as corporações de profissionais da área de saúde que atuam no atendimento às pessoas com deficiência, que tratam clinicamente crianças e jovens com problemas de adaptação social.

Neste sentido, a prática inclusiva traz um novo olhar para as pessoas com deficiência, com o objetivo que estes sejam igualmente respeitados e suas diferentes sejam valorizadas e que lhes sejam garantidos mesmos direitos e possibilidades educativas e sociais das demais pessoas da sociedade.

Conforme afirma Glat (2017, p.16) uma instituição inclusiva é um local “[…] onde os mecanismos de seleção e discriminação, até então utilizados, são substituídos por procedimentos de identificação e remoção das barreiras para a inclusão”.

Neste ponto, é importante destacar que as discussões relacionadas à evangelização inclusiva surgem com a denominada Educação Inclusiva, sendo esta um direito preconizado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996) em seu artigo 59, que menciona in verbis:

Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais: [...] III – professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns;

Dessa forma cabe às instituições, seja a escola ou a Igreja, realizar ajustes em seus planos pedagógicos e de execução de forma a contemplar as diferentes necessidades educativas dos sujeitos, possibilitando-lhes aprendizagens significativas, seja das interações sociais e afetivas, quanto educacionais.


Nesse mesmo sentido Mendes (2001, p.38), considera que:

O atendimento desse contínuo de dificuldades requer respostas educacionais adequadas, envolvendo a flexibilização curricular que pode configurar poucas ou variadas modificações no fazer pedagógico, visando remover as barreiras que impedem a aprendizagem e a participação dos alunos que apresentam dificuldades em seu processo de escolarização.

Assim, ressalta-se que o autor supracitado corrobora com a ideia que, o indivíduo que necessita de uma abordagem especializada deve ser atendido com respeito, que suas condições e necessidades para a inclusão sejam ofertadas garantindo o seu direito de frequência e permanência nas instituições.

Assim, no que tange aos fiéis surdos, algumas práticas tem sido adotadas pela Igreja Católica, sendo a principal delas, a instituição da Pastoral do Surdo que, segundo Silva (2012, p. 44) pode ser entendida como

[...] a ação da Igreja Católica que tem como princípio e fundamento a própria ação do Cristo relatada no evangelho de Marcos: “Trouxeram-lhe um surdo pedindo que lhe impusesse as mãos. Levando-o a parte, longe da multidão, colocou-lhe os dedos nos ouvidos, cuspiu e lhe tocou a língua com saliva. Levantou os olhos para o céu, suspirou e disse – Effata, que quer dizer: Abre-te. Imediatamente os ouvidos dele se abriram, soltou-lhe a língua e ele começou a falar perfeitamente” (Mc 7,32-35).

Sendo assim, a Pastoral do Surdos tem como objetivo acolher o público surdo na Igreja Católica “com a mesma dignidade que Jesus o fez em seu tempo” (SILVA, 2012, p. 41).

Dentre as ações que podem ser descritas como funções desta Pastoral, está o anúncio de Jesus Cristo às comunidades de surdos das regiões a partir dos agentes de evangelização, como os catequistas e coordenadores pastorais.

Além disso, esta prática pastoral também intuita possibilitar aos surdos um espaço efetivo na Igreja, possibilitando-os, por exemplo, assumir diversos serviços e de ministérios, contribuindo assim, para a eliminação do preconceito, do individualismo e da discriminação ainda presente na Igreja (SILVA, 2012).

Ainda para Silva (2012), conhecer os meios de comunicação do surdo, particularmente a libras, como instrumento e mediação do diálogo com os outros e com Deus também é do escopo da Pastoral dos Surdos, utilizando esta língua nas catequeses, nas missas e nos diversos encontros pastorais, como grupos de reflexão, orações do terço, dentre outras.

Considerações Finais 

Com o objetivo de discutir práticas inclusivas adotadas pela Igreja Católica e os impactos de tais práticas no que diz respeito aos religiosos, este texto, a partir de uma abordagem qualitativa, de cunho descritivo e bibliográfica se fundamentou no que consta registrado na literatura para que algumas considerações possam ser delineadas.

Percebe-se que a Igreja, como um todo, tem buscado a inclusão de todos em sua prática, inclusive daqueles que, anteriormente, eram discriminados e excluídos dos diferentes convívios sociais.

No caso dos surdos, as ações da Igreja são bastante evidenciadas a partir da instituição de um ministério pastoral próprio, a Pastoral dos Surdos, que pode ser entendido como um centro de referência e apoio às questões sociais, políticas e cristãs dos surdos e suas famílias.

Assim, a partir do uso de libras na Igreja, busca-se despertar a consciência crítica necessária para que os surdos se desenvolvam e participem de condutas políticas, que não apenas protejam seus direitos, mas ainda ampliem as políticas públicas para atender às novas demandas.

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, K. F.; ALVES, L. R. G. Tecnologias digitais e assistivas: mediando o processo de aprendizagem profissional dos alunos. Informática na educação: teoria & prática, v. 20, n. 4 dez, 2017.

BRASIL. Lei nº 9.394 de 20.12.1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação, 1996.

FONSECA, V. Introdução às dificuldades de aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 2015. 388 p.

GLAT. R. Educação Inclusiva: Cultura e cotidiano escolar. Rio de Janeiro: 7 letras, 2017.

JESUS, F. W. Igrejas Inclusivas em Perspectiva Comparada: da "Inclusão Radical" ao "Mover Apostólico", 2018.

MANTOAN, M. T. E. Inclusão escolar: o que é. Por quê, 12, 2016.

MENDES, E. G. Perspectivas atuais da educação inclusiva no Brasil. Anais do III Encontro de Educação Especial da UEM, Maringá, pp. 15-35, 2001.

OHLWEILER, L. Transtornos da aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed. 2016.

PESSOTTO, D. M.; RESENDE, O. A. Evangelização e Pluralismo Religioso na Escola Católica: vias para um diálogo evangelizador e inclusivo. Revista de Educação ANEC, v. 45, n. 158, p. 105-124, 2019.

SILVA, C. A. A. Igreja Católica e surdez: território, associação e representação política. Religião & Sociedade, v. 32, n. 1, p. 13-38, 2012.

SOFIATI, F. M.; MOREIRA, A. S. Catolicismo brasileiro: um painel da literatura contemporânea. Religião & Sociedade, v. 38, n. 2, p. 277-301, 2018.

STAKE, R. E. Pesquisa qualitativa: estudando como as coisas funcionam. Penso Editora, 2016.

RATZINGER, J. C. Instrução sobre alguns aspectos da “Teologia da Libertação”. Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, 1984. Disponível em: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19840806_theology-liberation_po.html. Acesso em: 02.jun.2021.

Antônio Augusto Dornelas de Andrade é Filósofo pela Faculdade Católica de Anápolis (GO); Teólogo pela PUC-Rio (RJ); Historiador pela FAVENI, de Montes Claros (MG). Especializações: Cultura Afro - Indígena Brasileira pela UNINTER, de Curitiba (PR); Tutoria e Educação EAD pela Faculdade Jardins, Aracaju (SE). Mestrando em Educação pela Universidad Columbia del Paraguay. É sacerdote da Arquidiocese do Rio de Janeiro e missionário "Ad Gentes" na Diocese de Dourados (MS). 


 

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