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O universo virtual e a evangelização
Saiba das oportunidades e exigências que o universo virtual oferece para a evangelização
18 junho, 2021 por
O universo virtual e a evangelização
Micheli Ferreira
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“O uso da internet na evangelização coloca uma grande exigência para a Igreja, que é um apelo de conversão”

Certa vez, fui a uma tradicional cidade de Minas Gerais dar um curso intensivo de Teologia. Na época, eu também fazia um programa diário sobre “Maria na Rádio Aparecida”. Então, perguntei ao padre se havia rádio na cidade e qual era a presença da Igreja nesta mídia. Ele me respondeu com certa indiferença: “Ah, tem lá um grupo de carismáticos que faz uns programas durante a semana”. Por intermédio de outro padre, fui convidado a fazer a “Hora do Angelus”. O operador da rádio me disse então: “Irmão, há dias em que eu não sei o que fazer aqui às seis da tarde, pois ninguém me orienta ou me dá material para os programas. Nossa rádio atinge muitas pessoas na cidade e, principalmente, nas comunidades rurais e me dá pena de ver que este espaço não é utilizado”.

Voltei para casa triste. No dia seguinte, conversei com alguns padres e leigos. Perguntei-lhes: Por que vocês não assumem estes e outros espaços na rádio? Houve um silêncio, e depois alguém arriscou uma resposta: “Temos muito o que fazer na paróquia. Não sobra tempo!” Na realidade, o problema não estava no tempo, mas nas prioridades. Estimulei que criassem uma equipe da pastoral da comunicação do rádio. E assim, eles fizeram.

As dificuldades de comunicação

Se a Igreja ainda tem dificuldades em evangelizar com o rádio, um veículo de comunicação tão popular e tradicional, imagine então com a internet, um meio novo, que despontou nos últimos anos e cresce rapidamente, utilizando recursos inéditos.

Predominam medo e preconceito, quando se fala em internet nos meios eclesiais. Há um número significativo de padres, bispos e agentes de pastoral, sobretudo os de faixa etária superior a 50 anos, de “analfabetos digitais”. Ou seja, não sabem e nem se dispõem a utilizar o computador ou acessar a internet. Portanto, falam daquilo que não conhecem, nem utilizam.

Internet: mocinha ou vilã?

Alguns repetem o discurso moralista: “o computador e a internet estão destruindo as relações. As pessoas já não conversam entre si e passam muitas horas diante da máquina”. Ou: “A internet é um antro de perdição”. É verdade que o acesso ao computador, com o consequente uso da internet, se realizado sem critérios e sem limites de tempo, apresenta sérios riscos à convivência humana. Pode substituir o necessário contato entre pessoas na família e na comunidade. Além disso, pode levar a pessoa a processos de dependência ou a enredar-se na pornografia, na violência ou outras vias desumanizadoras. De outro lado, a internet abre amplas possibilidades de comunicação não mais presencial, e sim virtual.

A internet é uma rede de computadores mundial de acesso de público ilimitado que utiliza uma infra estrutura de telecomunicações homogênea. Atualmente qualquer pessoa física ou jurídica pode participar da internet. Os requisitos são possuir um computador, um programa (software) e uma conexão com um provedor de acesso. Para viabilizar a troca de mensagens na internet foi desenvolvido o protocolo de comunicação TCP/IP – Transmission Control Protocol/Internet Protocol. (Em português: Protocolo de Controle de Informação/Protocolo da Internet). Sua função é dividir uma mensagem em vários pacotes compatíveis com a rede e encaminhá-los ao computador com um determinado endereço na internet.

A história da Internet

A história da internet começa na guerra fria na década de 60 com o medo da aniquilação em uma guerra nuclear. O Departamento de Defesa Norte Americano desenvolveu uma rede de computadores para a transmissão de informações imune a sabotagens. A ideia foi criar uma rede com vários computadores que pudessem trocar informações por meio de várias conexões independentes, de tal forma que se uma conexão ou um computador fosse paralisado os outros poderiam continuar a realizar esta tarefa. Anos depois, a internet começou a ser usada por empresas e por pessoas para se comunicarem por meio de e-mails ou correio eletrônico. E depois se estendeu a muitas outras possibilidades. (fonte: http://www.efagundes.com/artigos, como funciona a internet).

Do ponto de vista humano, a internet é mais do que uma rede de computadores. Transformou-se em uma Rede de redes entre pessoas e organizações. Sendo assim, ela não tem dono ou um poder central, embora seja monitorada e controlada de várias formas. A sociedade da Internet (em inglês), grupo sem fins lucrativos formado em 1992, supervisiona a formação de políticas e protocolos que definem como usamos e interagimos com a internet. Portanto, internet é uma coleção global de redes, grandes e pequenas. Estas redes se conectam de vários modos diferentes. De fato, o nome realmente vem desta ideia de redes interconectadas. (fonte: http://informatica.hsw.uol.com.br/infra-estrutura-da internet.html)

A internet facilita a comunicação entre pessoas, grupos e organizações por meio de muitos recursos. Citemos os mais conhecidos:

  • Correio eletrônico (e-mail ou emeio);

  • Redes ou grupos em torno a assuntos comuns;

  • Redes de relacionamento (como Instagram e Facebook);

  • Comunicação instantânea interpessoal por meio de escrita, voz ou vídeo (como Skype);

  • Videoconferência (três ou mais pessoas conectadas);

  • Site (sítio ou página na internet);

  • Portal (página mais complexa, que se abre para várias áreas da informação);

  • Blog (diário virtual que permite participação do interlocutor);

  • Compartilhamento de textos, músicas ou vídeos (como youtube e scribd);

  • Compartilhamento de programas (softers), rádio e TV virtuais, biblioteca virtual (como o Google books);

  • Mensagens para celulares e Smartfones.

As exigências da Evangelização

Isso sem falar da transmissão de dados de natureza técnica, tais como planilhas financeiras, projetos, dados contábeis, listas de nomes, estatísticas, fichas cadastrais, registros e documentos. Por fim, a internet está se tornando também um importante meio de entretenimento, ao oferecer vídeos, clipes e transmissão de alguns programas de rádio e TV em tempo real. Exigências de evangelização pela internet.

O espaço virtual não substitui o presencial, pois a vivência da fé postula vínculos afetivos e proximidade entre as pessoas. A evangelização pela internet não é a solução, mas somente uma parte dela. Há que se cuidar da qualidade dos processos evangelizadores com os grupos efetivos, como na liturgia, na catequese, na pastoral de juventude, nos círculos bíblicos, nos grupos de oração. Para a Igreja, a comunicação pela internet enriquece, amplia, diversifica e divulga uma prática real, sustentada em pessoas e processos. Não se trata de uma imagem simulada, mas da expressão da realidade.

A evangelização no espaço virtual tem suas exigências. Quem já está mergulhado neste, descobriu que não basta lançar informações, de qualquer forma.

Vejamos alguns cuidados da evangelização pela internet:

  1. A primeira exigência consiste em aprender o que é específico da internet, suas possibilidades e limites. Em vários casos, é necessário recorrer a um profissional da área. Em outros, é preciso uma formação específica, superando assim o amadorismo e a improvisação.

  2. A cultura midiática valoriza muito a imagem, a estética, o “design”. Um site, um blog ou qualquer outro recurso deve ser leve e bonito. Infelizmente, um percentual significativo de material produzido por pastorais, movimentos e demais órgãos da Igreja não desenvolvem bem este quesito. É preciso investir na beleza, clareza e navegabilidade dos sites eclesiais, de forma que eles se tornem mais atrativos.

  3. A mensagem escrita na internet é breve, concisa e direta. Para isso, deve-se desenvolver a capacidade de se expressar com menos palavras, concentrando-se no essencial. Exemplo radical disso é o microblog “Twitter”, que exige que o “twitteiro” se comunique como somente 280 caracteres. Com a internet, aprendemos a falar menos e dizer mais.

A renovação do Evangelho

O uso da internet na evangelização coloca uma grande exigência para a Igreja, que é um apelo de conversão. Não basta entrar em um canal novo ou usar recursos contemporâneos. Trata-se sobretudo de renovar o próprio conteúdo da mensagem, em uma relação dialogal com o mundo contemporâneo. Há grupos fundamentalistas, de diversas religiões e Igrejas, que sabem usar muito bem a internet. Mas o seu horizonte não é de rede, de intercomunicação, em vista da criação de uma sociedade planetária. Colocam-se na postura de transmitir uma verdade congelada e inflexível.

Conosco, não deve ser assim. Somos discípulos e missionários, aprendizes e anunciadores, em um diálogo enriquecedor com outras religiões, homens e mulheres de bem, movimentos sociais e ecológicos, governos e empresas. A internet, enquanto rede de interconexões, põe para a Igreja a tarefa de vencer a tentação da autossuficiência, do orgulho e do senso de superioridade. Faz-nos mais humildes, peregrinos, exercitantes do discernimento
comunitário.

A Internet auxiliando a Igreja

A internet pode ajudar a Igreja e exercitar sua catolicidade de forma nova. A Igreja se proclama “católica” porque é una, sendo diversa, em todas as partes do mundo. Ao mesmo tempo que inculturada em determinado campo geográfico ou cultural, ela é “comunidade de comunidades”, unida em torno a seus pastores, constituindo uma grande rede mundial. Seria muito pouco se cada paróquia, movimento ou pastoral criasse seu espaço na internet. E em breve, estaríamos em uma grande competição interna e haveria uma sobrecarga de informação.

Deve-se suscitar uma grande comunidade de aprendizagem, de forma que as pessoas e os grupos aprendam uns com os outros. Isso acontece simultaneamente em vários âmbitos: conteúdo e metodologia para evangelizar, partilha de experiências bem sucedidas e difusão de ferramentas. É preciso romper o isolamento e favorecer a “gestão do conhecimento” na pastoral. Somente assim a Igreja dará conta de acompanhar as rápidas mudanças culturais em curso.

Quem usa a internet como meio de evangelização, deve reservar um tempo periódico para isso, diário ou semanal. É preciso manter e atualizar o que se criou. É necessário navegar constantemente na rede e identificar as novas oportunidades e tendências. Em alguns casos, será necessário a constituição de uma equipe que coordene e maneje, com eficiência e criatividade, o espaço evangelizador na internet.

Ir. Afonso Murad é Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, com Especialização em Comunicação (USF-Paulinas) e Gestão com Ênfase em Marketing (Fundação Dom Cabral). Professor no ITESP (São Paulo) e na Faculdade Jesuítas (BH). Autor do livro: “Gestão e Espiritualidade”, Paulinas, dentre outros obras.

 

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