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A mística do comunicador
A Lâmpada e a Luz: um ensaio sobre a mística do comunicador

Com qual delas você se identifica? Com a lâmpada ou com a luz? Ainda confunde a luz com a lâmpada? Qual das duas é mais importante? Pense bem antes de ajoelhar-se diante do sacrário ou de passear com o ostensório diante dos fiéis. Por não deixar clara a diferença entre símbolo e o mistério, um grande número de pregadores desvia os fiéis para um devocionismo sem catequese: desfundamentam a fé, erguem edifícios frágeis e sem alicerce e enchem os templos de fiéis que procuram mais a lâmpada do que a luz. Formam gente que, ao invés de olhar ao redor para as coisas que a luz banhou, olham para a lâmpada de onde sai a luz. Ficam cegos de tanto se fixar na direção errada. Lâmpadas não são para serem vistas nem tocadas. A luz que elas emitem não são para se encarar de frente e, sim, para iluminar o que, de fato,  devemos encarar. Não paramos no símbolo, buscando o mistério para o qual ele aponta.

O cantor ou pregador que permite que lhe joguem um holofote no rosto, certamente brilhará e será altamente fotografável, mas ficará cego e não verá o povo para quem ele canta e fala. Será erro de comunicação dele e do iluminador. Mas, se a intenção daquelas luzes, de fato, for o brilho do pregador, do cantor ou do espetáculo, então, chame-se ao ato de espetáculo. Se for a mensagem, há que haver luzes mostrando quem a emite e quem recebe. Chame-se a este ato de rito ou de catequese. Quem ecoa a si mesmo não é catequista, é exibicionista. Falo como quem corre, permanentemente, este risco e como quem leciona Comunicação Religiosa há mais de 27 anos.

Em termos de comunicação cristã, o risco de acentuar a lâmpada e jogar tudo na direção dela e do seu bocal, ao invés de mirar o que a luz dela emanada ilumina, nos remete à resposta que devemos à graça do céu. O poder ou a busca do sentido de Deus entre nós não nos é dado para que as pessoas nos olhem, nem para que as câmeras se fixem em nós 95% do tempo da catequese e, sim, para que se mostre o povo que recebe a pregação; com o povo, outras imagens. O tempo que ficamos diante das câmeras pode ser mais danoso do que catequético, se não soubermos repartir nossa presença ali, com a presença dos outros. A ênfase no comunicador prejudica a comunicação. Nossa aparição seja breve ou cercada de outros que também aparecem. Criemos quadros que nos ajudem a tirar o excesso de luzes em cima de nós.

A graça não é posta nas mãos do pregador para que ele apareça e, sim, para que ele a entregue ao povo.  Jesus (Mt 10,27) sugeriu aos seus pregadores que pregassem à luz, com clareza e de cima dos telhados, não para que mais gente visse o pregador atuando e, sim, para que mais gente ouvisse o que ele diz. O advento da fotografia retocada, da mídia, das câmeras e da amplificação da voz e da imagem derrubou muitos pregadores das mais diversas igrejas, que, deslumbrados com o poder das luzes e da mídia, capitalizaram na sua imagem, mais do que na sua mensagem. Sei disso, porque não faltaram sugestões e tentações de diretores de marketing e de palco a me pedir que aceitasse aqueles holofotes e aquela super-exposição.     

Nos anos 60 fui discípulo, em Washington DC, USA, EM um curso de verão do Doutor Bacchero que lecionava na linha de Mc Luan, a matéria “Comunicação de Massa”. Naqueles dias, brilhavam Elvis Presley e os Beatles, Rock Hudson, John Wayne, Frank Sinatra, Dean Martin, Jerry Lewis, ainda Marilyn Monroe, e despontavam dez a quinze grupos de rock. Os holofotes estavam sobre eles.  Ele e outros mestres alertavam para o risco da autoexposição que escapa ao controle do indivíduo e ele vira produto de mercado. O marketing não era, ainda, a ciência que se tornou.

Qual tem sido o argumento dos pregadores das mais diversas igrejas, que aderiram ao marketing da fé e, ao ressaltar sua individualidade caíram no individualismo e no protagonismo acima e por sobre o protagonismo do povo de Deus?  Precisam aparecer para vender... Precisam se manifestar para anunciar. Afirmam que são dados em espetáculo ao mundo (1Cor 4,9), mas só isso, porque esquecem e raramente se arriscam a entrar em temas que explicam a primeira parte da sentença de Paulo. Estão mais para 2Tm 4,1-5 do que para o Paulo que precisou ser descido em um cesto para escapar dos seus perseguidores... Raramente entram em temas sociais. Dizem que cuidar de doentes e endemoninhados (sic) e, ao ensinar a orar para conseguir subir na vida já fazem um trabalho social.

Seu outro argumento é o de que, ao aparecerem e mostrarem seu rosto, tornando-se referência, conquistam os olhos e os corações de milhões de pessoas para si, e então podem anunciar o Jesus que levam em si. A notoriedade lhes dará mais autoridade! Divulgar-se para divulgar! Há verdade nisso, mas o argumento é escorregadio. Eles sabem e muita gente sabe dos perigos do excesso de luzes sobre a prima dona ou sobre o ator número um. Ou são realmente bons ou perdem a aura! Com o tempo, seu protagonismo será de tal monta que não poderão mais descer do palco ou do púlpito para o meio do povo. Elvis, Marilyns, Madonnas, Britneys e outros ídolos de ontem e de hoje, de tanto marketing terminam cercados de guarda-costas... Passam a pregar de cima e a viver em bolhas e redomas.

Digo isso porque houve um tempo em que passei pela tentação de ir mais longe do que tinha ido, pelo argumento de que chegaria aonde os outros não chegam. Alguém tem que ir lá, aonde ninguém foi. “Essa pessoa pode ser você!” “Não jogue fora esta chance de evangelizar milhões” - diziam. Muitas vezes, nos anos 70 e 80 ao ouvir isso pensei na tentação da montanha e no “tudo isso te darei...” (Mt 4,1-11). Marketing não deixa de ser marketing, mesmo que seja o da fé. Optei por não ser levado tão longe, posto que na mídia, o verbo às vezes somos mais levados do que vamos. O marketing mais nos leva e nos empurra do que nos deixa ir. Ele tem seus próprios mecanismos. Quem está na mídia há mais de 40 anos sabe que este riacho vira rio caudaloso e não poucas vezes transborda. Ou o aceitamos com suas regras ou, como cavalo xucro, ele nos derruba. Tem que ser muito peão para ficar muitos anos montado no marketing.

Não me considero nem acima nem melhor do que os outros que aceitam ser lâmpadas. Eu fui e ainda sou, mas trago comigo a mística do brilhar junto e acentuar as outras lâmpadas que me ajudam a emitir a luz.  Quero luz sobre os meus cantores e os quero ao meu lado e não atrás de mim, até porque, sem eles a mensagem que levo perderia sua força de comunicação. Eles, com o seu brilho de cantores da fé e eu, com minhas luzes de pregador; mas nunca os holofotes por muito tempo sobre minha pessoa. Quem já viu meus shows nos últimos 40 anos deve ter percebido que não fico à frente de quem prega comigo. Ficamos na mesma linha. E não aceito holofotes sobre mim. A luz deve girar entre os cantores e o povo e um pouco sobre mim, o mais discretamente possível.

Aos meus alunos digo o que acabo de escrever. Segure o cálice a patena, o ostensório, o violão, a Bíblia e os sinais e instrumentos como quem segura uma lâmpada.  Apagada, fechada, mal citada, mal ligada, mal alimentada ou piscando, ela mais prejudica do que ajuda.  Valorize a luz que nasce daqueles sinais. Trate de ser um deles, mas não lute para ser o sinal número um.

Lembro-me de um episódio que para mim foi salutar. Nesses 43 anos de comunicador, uma vez, tiraram do horário nobre o meu programa que tinha muita audiência. Razões da emissora e dos diretores... Se Deus deu a eles a direção daquele veículo, deu a eles mais do que a mim. São carismas. Não precisavam mais do meu. Não abri a boca. Fui embora. Pregaria onde, para quem e na hora em que me fosse permitido. Perdi ouvintes e espectadores. Mas outros diretores me acharam e os ouvintes tornaram a me achar. Expliquei-me, depois a alunos que me perguntaram por que não lutei por meu espaço já conquistado. Era mística.

Disse-lhes que não era conquista. Deus me havia dado aquela chance. Veio alguém que não via as coisas do mesmo jeito e entendi que perdera um espaço concedido. O convite acabara! Nunca assino contrato de trabalho com as mídias onde atuo. São livres para deixar alguém no meu lugar e eu sou livre para ir embora. A palavra não deve acorrentar nem os diretores nem os pregadores. Se o diretor quer outra pregação e outro pregador mais da sua linha, ele está no seu direito. Preciso respeitar o catecismo que ele estudou, pregadores que ele ouviu e os livros que ele leu. Se não temos a mesma visão pastoral e ele tem as chaves da emissora, quem fica é ele e quem sai sou eu. A palavra de Deus veio a mim, mas não é minha. Disse Paulo: Porventura saiu dentre vós a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós? ( 1Cor 14, 36) E disse mais: disse que a palavra de Deus não está presa nem ao dono da emissora, não a diretor de marketing, nem ao pregador, nem ao cantor. Disse-o em outras palavras, mas foi claro. (1Cor 9,19).

Alguns tradutores verteram os textos de 2Cor 2,17  e 2Cor 4,2 como mercadejar ou subverter a  Palavra de Deus. O perigo de brigar para brilhar está na triste realidade que já conhecemos: a do pregador que luta por seu espaço e o consegue para logo depois descobrir que achou o seu espaço, mas não o espaço da Palavra. Antonio Vieira no seu famoso “Sermão da Sexagésima” lembra que pregar palavras de Deus não é o mesmo que pregar A Palavra de Deus. Pregadores eminentes e evidentes não são necessariamente pregadores da eminência da Palavra. Não poucas vezes posam de videntes para se tornarem evidentes. Jeremias arrasa com tais profetas e,m Jr 14,14.

Raciocinei ainda, em base a (Mt 20,16; 23,6; Lc 14,10) com os amigos que me aconselhavam a lutar por meu “espaço”. Nestes textos há toda uma mística sobre lugares. Entendo que o comunicador da fé não tem lugar garantido em editora, emissora ou diocese alguma. O lugar sempre lhe será concedido. Se mudar o bispo e este seguir outra linha pastoral, prevaleça a nova linha, uma vez que o bispo eleito foi ele e não o pregador. Nenhum pregador deve ser entrudo, nem entrão; muito menos deve ser impulsionado por estratégias de marketing agressivo.  Deve, sim, sentir-se convidado. Toda a vez que o pregador se faz convidar para mostrar sua obra e seu discurso, corre um risco de sentar-se em lugar que não é o seu (Mt 22,11; Lc 14,8). Se uma comunidade não precisa mais dele e não o quer, como são milhares as comunidades e, sendo a Igreja uma “comunidade de comunidades”, haverá sempre alguém que queira o ouvir.

Nem a missa, nem o púlpito, nem o palco, nem a canção, nem a mensagem nos pertencem. João Paulo II e Bento XVI tocaram no assunto ao falar da Eucaristia. Nenhuma missa deve estar ligada ao nome do celebrante. Missa de cura é toda e qualquer missa e não apenas a das 19 horas na quinta-feira, celebrada pelo padre ‘XYZ’. Então, o pregador apareça, mas não demais, espere ser convidado, mostre qualidade na sua obra recém-publicada, e entregue sem pretensões a sua nova mensagem.  Carteiro que dá show de entrega, às vezes termina por não entregar mensagem alguma! Escorrega no degrau de subida...

Pe. Zezinho, SCJ é  Sacerdote da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus – Dehonianos, Compositor, Escritor, Cantor, Professor. 

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