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A comunicação na Igreja em época de pandemia
A eclesiologia do Concílio Vaticano II e as novas linguagens na comunicação: a comunicação na Igreja na pandemia do coronavírus
22 junho, 2021 por
A comunicação na Igreja em época de pandemia
Micheli Ferreira
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O presente artigo foi reelaborado a partir de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) numa Pós-graduação em Teologia Contemporânea e que partilho agora com você, querido leitor. Estamos num contexto mundial de pandemia pelo corona vírus e com as medidas de distanciamento social, a atividade pastoral da igreja foi dramaticamente afetada, sobretudo, o modo de celebrar. Nos afastamos da presença e do contato com nossos fieis e isso, nos fez refletir na importância das Novas Linguagens na Comunicação. Refletiremos aqui a importância da internet e das diversas plataformas de Mídias Sociais que foram e estão sendo usadas pelas Dioceses, Paróquias e Comunidades de todo Brasil como ferramentas de proximidade do “pastor” com o seu “rebanho”. O Concílio Vaticano II será o nosso ponto de partida, pois é sentido como um divisor de águas para a Igreja, tornando-a capaz de refletir acerca de sua vocação e da sua relação com um mundo em trânsito.

O Papa Francisco, reiteradas vezes refletiu que a Igreja não pode ser autorreferenciada; ela deve olhar sempre para Jesus! É a partir Dele que devem surgir os planos de ação pastoral e, sem jamais prescindir do impulso do Espírito Santo que governa e dirige a Igreja. Três Documentos Conciliares foram especialmente tomados neste artigo: As Constituições Gaudium et Spes e a Lumem Gentium e o Decreto Inter Mirifica. A primeira para falar da Igreja e a sua relação com o mundo moderno no enfrentamento dos mal-entendidos e da sua reconciliação com ele, e, a segunda para fundamentar a natureza da sua identidade e vocação em ser um sinal sacramental no mundo e uma luz para os povos.

O terceiro, já são as ressonâncias do viriam a ser esse Concílio para o futuro da comunicação dentro e fora da Igreja e que repercutiram em sua relação com a cultura e o mundo moderno-contemporâneo. As Constituições Dogmáticas são as bases para falar de um novo paradigma eclesiológico no qual a Igreja se projeta para o mundo e, saindo de si mesma vai adotar uma postura mais conciliadora, dialógica e conectada com o agora. Elas se tornam a fonte inspiradora de todo o trabalho da Igreja quando a questão é o desafio de comunicar a fé num contexto onde as mídias se inovam e se reinventam cotidianamente.

A questão se torna desafiadora visto que a cultura midiática e digital marca de forma decisiva o comportamento dos sujeitos/fieis. Na realidade transformada se evidenciam situações em que o fenômeno dentro da comunicação muda as próprias perspectivas da comunicação, pois ela influi na vida individual e social das pessoas. Se é verdade que surgem problemas éticos e morais, como as fakenews e o sensacionalismo midiático, há que se levar em consideração o poder integrador destas mesmas mídias sociais. A pergunta que se faz e que nos coloca numa encruzilhada é, portanto: Como reagir? De um lado temos um desafio ético e moral e do outro um desafio pastoral à Igreja, não sendo possível escolher apenas um lado, pois esses desafios se entrecruzam no discurso eclesial que deve se propor salvífico.

Quanto ao primeiro desafio, há uma bibliografia suficientemente disposta pelo Pontifício Conselho das Comunicações e do vasto trabalho de Joana Terezinha Puntel acerca da cultura midiática eclesial que referendo como leitura para quem desejar aprofundar a temática. Quanto ao segundo, o desafio pastoral, será implementar em nossa ação evangelizadora o universo disponível do acervo das mídias sociais que temos à disposição.

O Papa Bento XVI em Silêncio e Palavra: Caminho de Evangelização (46º Dia Mundial das Comunicações 2012) trata a internet não apenas como um dado da cultura, mas como uma Nova Cultura: “…As redes sociais são o ponto de partida da comunicação para muitas pessoas, que procuram conselhos, sugestões, informações e respostas”, afirma o Pontífice. Não podemos descuidar do seu potencial de alcance! Nos nossos dias, a Rede vai-se tornando cada vez mais o lugar das perguntas e das respostas. E neste sentido, a Igreja que é essencialmente vocacionada à comunicação, visto que a Revelação cristã é Deus falando aos homens numa linguagem acessível, a Igreja deve reivindicar um lugar que é seu por direito e assumir a enorme variedade de plataformas hoje disponíveis: instagram, facebook, aplicativos para celular, tiwiter, podcasts, sites entre outros, como parte do seu aparato evangelizador contemporâneo.

Penso que a pandemia mundial do corona vírus veio nos recordar que não podemos prescindir destes recursos que estão acessíveis e, que se bem usados, podem nos aproximar ainda mais dos fiéis, traduzindo uma linguagem de fé mais conexa com o momento que vivemos de midiatização da vida. Se olharmos para Jesus, perceberemos nele um grande visionário e capacidade de sentir o momento e não perder a oportunidade.

Foi assim quando ele falava às multidões usando o recurso de linguagem da época. Não eram as parábolas o melhor gancho linguístico de Jesus para se conectar com os seus ouvintes de forma eficiente? A internet e as mídias sociais não seria esse novo gancho da linguagem para poder responder às pessoas que estão nas redes sociais e que fazem as mesmas perguntas existenciais de antes e que por medo do novo e incapacidade técnica não conseguimos alcançá-las? Vejo com bastante entusiasmo o Documento 109 da CNBB – DGAE 2019-2023, parágrafo 159 recomendando “utilizar o potencial das redes sociais, desenvolver e difundir aplicativos, para que a Palavra de Deus alcance todas as pessoas em todas as situações”. Isto posto, verifico pela minha experiência como Coordenador de Pastoral da Diocese de Itabuna, na Bahia, que o clero local ainda vê com desconfiança as novidades tecnológicas que podem auxiliar a pastoral numa cidade cuja sede diocesana é uma metrópole regional e tem fortes apelos por uma pastoral urbana que se vista de uma parresia no estilo Jesus de Nazaré.

Neste tempo de pandemia, as paróquias que já vinham implantando as pastorais de comunicação, saíram à frente daquelas que não tinham nenhuma experiência de streaming, pois conseguiram um fluxo mais rápido de comunicação de áudio e vídeo em tempo real, levando a igreja até os fiéis, minimizando a distância de sua comunidade afetiva. Uma experiência particular vivenciada pela Paróquia São Judas Tadeu na cidade de Itabuna onde sou pároco, foi a criação de um aplicativo de celular, disponível no Play Store e com mais de 3 mil downloads, onde ofertamos ao fiel na palma de sua mão, a liturgia da missa semanal e dominical completa e a liturgia diária, com a diferença de ser um periódico virtual que funciona totalmente off-line. Além de orações, mala direta com paroquianos cadastrados, horários e lugares de missas, encontros e reuniões, e que nesta pandemia tem oferecido o sistema de doação online de forma segura e confortável, visto que perdemos as ofertas ordinárias das missas presenciais.

É importante integrar ao nosso trabalho os aspectos positivos das tecnologias de comunicação, de modo especial as redes e mídias sociais para um frutuoso trabalho pastoral, bem como considerar as demandas a partir da realidade local. É preciso critérios de bom senso pastoral na qual a pergunta chave será: a minha paróquia e/ou o meu fiel tem este perfil? Ora, Jesus já dizia que a verdade é libertadora e não devemos ter medo de nos impor certas perguntas. Neste sentido saber quais são as minhas demandas e as demandas da minha comunidade eclesial será fundamental para implementar as mudanças necessárias para que elas possam se traduzir em crescimento espiritual e pessoal dos agentes envolvidos diretamente, da ação pastoral e do ente institucional que é a paróquia. Faço votos que este artigo tenha ajudado a despertar o interesse de aprofundar a questão da comunicação na igreja sob o enfoque das novas linguagens e ferramentas presentes em nossa comunicação atual.

Padre Acássio Alves – membro do clero diocesano de Itabuna na Bahia é professor de Teologia na Escola de Teologia para Leigos e no Seminário Propedêutico São José, Coordenador Diocesano de Pastoral, Membro do Conselho Presbiteral, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Pós-graduado em Psicologia Educacional, Especialista em Teologia Contemporânea e MBA em Gestão de Equipes e Marketing em curso.

 

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