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Espiritualidade do cotidiano: o sentido de viver com fé
A oração e a vida acomodada não combinam (Santa Teresa D'Ávila)
29 julho, 2021 por
Espiritualidade do cotidiano: o sentido de viver com fé
Micheli Ferreira
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O ano de 2013 ficou marcado pela surpresa da renúncia do papa Bento XVI ao ministério de bispo de Roma, sucessor de Pedro. Surpresa também foi a eleição de um papa de origem latino-americana, o Cardeal Jorge Bergoglio, fato inédito na história da Igreja.

Como entender estes fatos, se não à luz da história da salvação, ou melhor, sob a inspiração do Espírito Santo de Deus, que faz crepitar em nossos corações o vigor de uma vida nova e contagiante. De fato, apenas pelo crivo da espiritualidade que poderemos compreender o sentido de fatos extraordinários, como no caso da renúncia de um pontífice, ou nos acontecimentos mais simples de nossas vidas.

Nas palavras de Santa Teresa, a oração é o condimento que nos ajuda a perceber os detalhes da vida, dando sentido e sabor à nossa fé.


Também em 2013 foi publicada a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho). Nela podemos encontrar as diretrizes para o anúncio do Evangelho no mundo atual, porque contém as reflexões do Sínodo dos Bispos sobre A nova evangelização para a transmissão da fé cristã, realizado em outubro de 2012, sob a presidência do papa Bento XVI, mas a Exortação foi publicada já no pontificado do papa Francisco.

O que podemos aprender com este gesto? Que a Igreja é de fato a barca de Pedro, guiada pelo Espírito Santo, mas depende do nosso empenho e da nossa adesão sincera de seguimento de Jesus Cristo e vivência dos valores do Evangelho.

A espiritualidade do cotidiano

No Capítulo 5 da Exortação Apostólica Alegria do Evangelho, encontramos uma verdadeira catequese sobre a espiritualidade do cotidiano. “Quando se diz de uma realidade que tem ‘espírito’, indica-se habitualmente uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária” (EG n. 261).

Lendo e relendo essas linhas da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, compreendemos que viver é mais que cumprir com a rotina do dia a dia. A espiritualidade do cotidiano nos desperta para uma vida com sentido, sabendo ter critérios para as nossas escolhas. Quando afirmamos ter fé em Jesus Cristo, assumimos um compromisso concreto de realizar todos os dias os mesmos gestos dele.

Assim, o passar dos dias não pode assumir o caráter da rotina, aquela tentação que enferruja nosso entusiasmo e nossa opção fundamental de viver a vida com os mesmos sentimentos de Jesus Cristo (Fl 2,5).

Ao contrário da rotina, o cultivo da espiritualidade do cotidiano nos permite identificar no passar dos dias, a chance de renovar o sentido da minha vida, a rela intenção de nossos atos e de nossas palavras. O cotidiano é a chance que temos para perceber que cada dia é único, e por isso, é uma oportunidade para renovar o sentido que tem a fé em Jesus para a minha vida.

“‘Evangelizadores com espírito’” quer dizer evangelizadores que rezam e trabalham. É preciso cultivar sempre um espaço interior que dê sentido cristão ao compromisso e à atividade” (EG 262). O sentido de ter fé fica registrado pela experiência que fazemos do encontro pessoal com Jesus e seu projeto de vida nova para nós.

O sentido da fé e a era da experiência

Prestemos atenção nestas linhas da Exortação Apostólica Alegria do Evangelho: “Às vezes perdemos o entusiasmo pela missão, porque esquecemos que o Evangelho dá resposta às necessidades mais profundas das pessoas, porque todos fomos criados para aquilo que o Evangelho nos propõe: a amizade com Jesus e o amor fraterno” (EG n. 265).

A história da humanidade se constrói com a capacidade humana de transformar as realidades e os bens que dispõe na natureza. Com uso da inteligência, de acordo com as possibilidades de cada cultura, a humanidade percebe que a cada época, as gerações se caracterizam por um aspecto. E a geração de nossos dias se caracteriza pela experiência.

Quando falamos em fazer sentido, ou dar sentido para a fé, precisamos ter em mente o valor da experiência. A fé precisa de uma dimensão prática, factível, onde aquilo que se aprende alcança uma dimensão operacional e concreta.

E logo na abertura da Evangelii Gaudium podemos ler: “A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (EG n. 1).



A partir desta inspiração, queremos motivar para um sincero exame de consciência:

  • Por que faz sentido ter fé em Jesus nos dias atuais?

  • Em que momentos do dia (da semana) procuro alimentar e saborear o encontro pessoal com Jesus pela oração pessoal, meditação da Palavra e pelos sacramentos?

  • Quais as experiências marcantes de fé que sustentam a minha memória e confirmam todos os dias o sentido de viver em comunidade?

  • De que maneira as minhas atitudes, palavras e gestos ajudam a alimentar a experiência de fé das pessoas que convivem comigo?

Cada dia é uma oportunidade única para alimentar nossa experiência de viver a fé. E também, uma oportunidade de transmitir essa mesma experiência para quem convive conosco.

Ter o nosso cotidiano fecundado pelo Espírito Santo (espiritualidade é deixar-se conduzir pelo Espírito), nos leva a “procurar o bem do próximo, desejando a felicidade dos outros. Esta abertura do coração é fonte de felicidade, porque ‘há mais felicidade em dar do que em receber’ (At 20,35)” (EG n. 272).

E, concluindo, podemos entender espiritualidade, experiência e sentido com a seguinte frase: “Se consigo ajudar uma só pessoa a viver melhor, isso já justifica o dom da minha vida. E ganhamos plenitude quando derrubamos os muros e o coração se enche de rostos e de nomes” (EG n. 274).

A espiritualidade do cotidiano não permite que olhemos no rosto das pessoas com a ferrugem da rotina. Em cada rosto e em cada nome existe uma novidade divina para a minha vida. E este encontro de novidades enche a minha e sua vida de sentido.

Que assim seja!

   

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Rezemos:

Ó Espírito Santo, dai-me um coração grande, aberto à vossa silenciosa e forte palavra inspiradora, fechado a todas as ambições mesquinhas, alheio a qualquer desprezível competição humana, compenetrado do sentido da santa Igreja!

Um coração grande, desejoso de tornar-se semelhante ao Coração do Senhor Jesus!

Um coração grande e forte para amar todos, para servir a todos, para sofrer por todos!

Um coração grande e forte para superar todas as provações, todo tédio, todo cansaço, toda desilusão, toda ofensa!

Um coração grande e forte, constante até o sacrifício, quando for necessário!

Um coração cuja felicidade é palpitar com o Coração de Cristo e cumprir humilde, fiel e virilmente a vontade do Pai. Amém.

(São Paulo VI)


Ariél Philippi Machado é 

Catequista na Arquidiocese de Florianópolis (SC), membro da Rede Lumen de Catequese, 

Teólogo e Especialista em Catequese – Iniciação à Vida Cristã.

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