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A proposta de catequizar e a reciprocidade da vida cristã
Tenha como proposta catequizar valorizando e partilhando os dons primando pela reciprocidade da vida cristã
11 maio, 2021 por
Micheli Ferreira
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O ensinamento e aprendizado para a vida cristã deve ter como base a própria vida de quem educa, obviamente enraizada na pessoa de Jesus.

Educar é uma tarefa que faz parte direta e indiretamente da vida de toda pessoa. Sabemos que o educar trata de todos os cuidados necessários ao pleno desenvolvimento humano de modo geral, sobretudo relativo à estrutura da personalidade. Sendo assim, no âmbito religioso e catequético, não se faz diferente, pois para o desenvolvimento cristão é preciso estar vinculada uma boa educação com base nos valores evangélicos. Educar quer dizer preparar as pessoas para viver bem no mundo, isso está expresso na origem da palavra educar, que vem do latim educare, educere, tendo seu significado literal em conduzir para fora ou direcionar para fora. Um preparo interior para que a pessoa humana tenha estrutura para sair de si e conviver com outrem numa sociedade com tantas diversidades.

O ensinamento e aprendizado para vida cristã deve ter como base a própria vida de quem educa, obviamente enraizada na pessoa de Jesus. Neste processo catequético-educativo, cada pessoa é chamada a uma plenitude de vida que se estende muito para além das dimensões da sua existência terrena, porque consiste na participação da própria vida de Deus[1]. Vale ressaltar que,  em nosso tempo, juntamente com a evolução tecnológica e suas facilidades, surgem também outros tantos desafios para a educação, sobretudo, em relação à falta de comprometimento existencial entre as pessoas.

Percebe-se que a humanidade vive, neste momento, uma viragem histórica, que podemos constatar nos progressos que se verificam em vários campos. São louváveis os sucessos que contribuem para o bem-estar das pessoas, por exemplo, no âmbito da saúde, da educação e da comunicação. Todavia, não podemos esquecer que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo vive o seu dia a dia precariamente, com trágicas consequências. Crescem a falta de respeito e a violência, a desigualdade social torna-se cada vez mais patente. É preciso lutar para viver, e muitas vezes viver com pouca dignidade. Esta mudança de época foi causada pelos enormes saltos qualitativos, quantitativos, velozes e acumulados que se verificam no progresso científico, nas inovações tecnológicas e nas suas rápidas aplicações em diversos âmbitos da natureza e da vida. Estamos na era do conhecimento e da informação, fonte de novas formas de um poder muitas vezes anônimo[2].

Sabemos ainda que, no desenvolver educativo de cada pessoa, muitos caminhos e métodos podem ser utilizados para favorecer a vivência dos valores éticos, morais e religiosos. No seio familiar temos os primeiros sinais e fundamentos de uma boa educação, nas escolas e centros culturais, ou seja, no corriqueiro das relações de cada dia recebemos formal e informalmente pitadas de educação. O amadurecimento de cada pessoa em seu processo educacional passa também pela evangelização, sobretudo, nas bases catequéticas da infância. Portanto, a evangelização procura também o crescimento, o que implica tomar muito a sério em cada pessoa o projeto que Deus tem para ela. Cada ser humano precisa sempre mais de Cristo, e a evangelização não deveria deixar que alguém se contente com pouco, mas possa dizer com plena verdade: Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim (Gal 2, 20)[3].

As nossas catequeses, na responsabilidade de cada catequista, não podem ter uma visão unilateral sobre a realidade atual. É preciso contemplar a realidade em seus contextos e acessar a individualidade de cada catequizando para assim adentrar  em seu mundo e promover o anúncio querigmático com grandes possibilidades do mesmo ser internalizado. No Congresso Internacional das Escolas Católicas, o Papa Francisco afirmou aos educadores que para educar as crianças, adolescentes e jovens é preciso ser mestre na linguagem da testa, das mãos e do coração. A educação deve andar com estes três caminhos. Ressalta ainda que é urgente ensinar a pensar, ajudar a fazer bem e acompanhar o crescimento interior. É assim uma educação inclusiva porque todos têm um lugar.

Desta maneira, comprometendo-se com o amadurecimento integral da pessoa, voltamos a descobrir que também na catequese tem um papel fundamental o primeiro anúncio ou querigma, que deve ocupar o centro da atividade evangelizadora e de toda a tentativa de renovação eclesial. O querigma é trinitário. É o fogo do Espírito que se dá sob a forma de línguas e nos faz crer em Jesus Cristo, que, com a sua morte e ressurreição, nos revela e comunica a misericórdia infinita do Pai. Na boca do catequista, volta a ressoar sempre o primeiro anúncio: Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar’”[4].

Todos têm o direito a uma boa educação e isso compõe a dignidade de cada pessoa. Por isso, nas dioceses, paróquias e comunidades, os processos catequéticos devem ser sempre conduzidos por pessoas preparadas e por uma pedagogia do amor que cuida, ensina, desperta e impulsiona a um agir cristão autêntico.  É preciso ter sempre presente que todos os homens, de qualquer raça, condição e idade, por força da dignidade de pessoa, têm direito inalienável à educação, correspondente ao próprio fim, acomodada à própria índole, sexo, cultura e tradições pátrias, e, ao mesmo tempo, aberta ao consórcio fraterno com os outros povos para favorecer a verdadeira unidade e paz na terra. A verdadeira educação, porém, pretende a formação da pessoa humana em ordem ao seu fim último e, ao mesmo tempo, ao bem das sociedades de que o homem é membro e em cujas responsabilidades, uma vez adulto, tomará parte[5].

Para uma catequese vivencial comprometida é preciso inserir sempre mais os catequizandos na dinâmica de atividades extras à sala de catequese para favorecer a concretização dos valores evangélicos no dia a dia. Portanto, seguem algumas propostas de vivência e dinâmicas que podem ser usadas em atividades centradas nas qualidades que se aprendem nos encontros de catequese:

Inserir os catequizandos e também os pais, na perspectiva da catequese em família, em trabalhos concretos de evangelização como: visitas a lar de idosos, orfanatos, colégios e ainda nas diversas atividades pastorais.

Inserir no processo pedagógico-catequético, com ajuda de profissionais, dinâmicas de personalidade para que os adolescentes e jovens possam alcançar uma maturidade humana e cristã.

No âmbito do próprio grupo, fomentar o senso de cuidado e atenção de uns para com os outros. Trazer filmes, documentários e debates que evidenciem sobre o senso ético e moral, sobre o bem comum, a liberdade, os direitos e deveres e a responsabilidade.

Na perspectiva de conscientização social, realizar com os catequizandos gestos concretos de trabalhos sociais como arrecadação de cestas básicas, materiais de limpeza, material escolar e outros para o benefício de entidades sociais.

Torna-se evidente que educar bem também é evangelizar. Quem nos inspira é o próprio Cristo que foi o grande educador de toda a humanidade. Não se pode perder de vista que este compromisso de preparar pessoas, educando-as para a sociedade é uma tarefa intrínseca à Igreja e a cada fiel comprometido com os ensinamentos de Cristo, exercendo seu testemunho evangélico, ético, moral, politico, cultural e de cidadania. Jesus mostrou isso aos apóstolos e  os mesmos testemunharam com a própria vida e, hoje, somos nós chamados a cumprir a mesma missão.

Pe. José Ronaldo de Castro Gouvêa, SCJ é Vigário no Santuário São Judas Tadeu em São Paulo/ SP, Assessor de Comunicação da Região Episcopal Ipiranga da Arquidiocese de São Paulo.

[1] Cf. Evangelium Vitae, n. 2

[2] Cf. Evangelii Gaudium, n. 52.

[3] Evangelii Gaudium, n. 160.

[4] Evangelii Gaudium, n. 164.

[5] Cf. Declaração Gravissimum educationis, n. 1, in Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), Paulus, 1997.

Micheli Ferreira
11 maio, 2021
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