Pastoral Social

A Igreja como sinal e fermento da transformação social

Você já deve ter ouvido falar, ao menos uma vez, de Pastoral da Criança, que ganhou destaque na Televisão como parceira do “Criança Esperança”. A Pastoral da Criança é uma das tantas iniciativas da Igreja no âmbito social que almeja oferecer à população brasileira oportunidades de melhoria da qualidade de vida, em vista de uma evangelização integral, que vise corpo e alma, indivíduo e sociedade. Uma explicação simples sobre a Pastoral da Criança e outras formas organizadas da ação da Igreja no Brasil no campo social você pode encontrar no livro “O que é Pastoral Social” – Ed. Loyola organizado pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Como esta obra é muito clara e pouco conhecida, vamos nos servir dela para apresentar o que são as Pastorais Sociais, como atuam, o que realizam.

POR IR. AFONSO MURAD

Você quer saber algo sobre a Pastoral da Criança? Ela começou em 1983 no interior do Paraná, para responder a um problema muito concreto: a desnutrição das crianças pobres. Então, com criatividade, ousadia e recursos simples, desenvolveu uma metodologia eficaz, que se tornou até referência internacional e foi copiado em outros países. Hoje ela está espalhada pelo Brasil inteiro, engajando uma quantidade enorme de voluntários.

Um exemplo nacional

A Pastoral da Criança usa uma metodologia que conta com três grandes momentos de intercâmbio de informações que ajudam no fortalecimento da solidariedade:

1°. Visitas domiciliares mensais, realizadas pelos líderes a cada família acompanhada;

2°. Dia do Peso, quando cada comunidade se reúne para pesar as suas crianças; esse dia se transforma no momento de celebração da vida;

3°. Reuniões com todos os líderes de uma mesma comunidade para refletir e avaliar o trabalho realizado no mês anterior.

A prática da Pastoral da Criança parte da ideia de que a solução dos problemas sociais necessita da solidariedade humana, organizada e animada em rede, com objetivos definidos, e que o principal agente de transformação são as lideranças das comunidades pobres e miseráveis, especialmente a mulher, que transforma a sua família e a comunidade. Por isso, mais de 90% dos agentes na Pastoral da Criança são mulheres.

A experiência demonstra que a solução dos problemas sociais depende da transformação do tecido social e de políticas públicas voltadas para os mais necessitados. É uma tarefa que deve ser compartilhada entre governo, empresários e sociedade civil. Por isso, as parcerias entre eles são de fundamental importância na busca da realização de um trabalho eficaz que realmente chegue às famílias e comunidades, envolvendo-as no protagonismo de sua própria transformação social.

Fazendo a união entre a fé e o compromisso social, a Pastoral da Criança organiza as comunidades em torno de um trabalho de promoção humana no combate à mortalidade infantil, à desnutrição e à marginalidade social. Ela atua eficazmente na educação para uma cultura de paz e na melhoria da qualidade de vida de mais de um milhão de famílias acompanhadas. O trabalho essencial é a organização da comunidade e a capacitação dos líderes voluntários que ali vivem e assumem a tarefa de orientar e acompanhar as famílias vizinhas, para que elas se tornem sujeitos de sua própria transformação pessoal e social.

A base de todo o trabalho da Pastoral da Criança são a comunidade e a família. A dinâmica consiste em capacitar líderes comunitários, que residem na própria comunidade, para mobilização das famílias nos cuidados com os filhos. Em todas as comunidades atendidas, coloca-se em prática um conjunto de ações que vão daquelas voltadas para a sobrevivência e desenvolvimento integral da criança até a melhoria da qualidade de vida das famílias carentes, tanto no plano físico e material como no espiritual. Dessa maneira, procura gerar igualdade de oportunidades, justiça e paz.

4 ações se destacam

Ações Básicas de Saúde;

Educação;

Nutrição;

Cidadania.

Além da Pastoral da Criança, existem outras iniciativas da Igreja no campo social, que atuam em nível local e regional e são reconhecidas pela CNBB como legítimas iniciativas cristãs em vista de criar uma sociedade justa, solidária e sustentável.

Pastorais Sociais: o início de uma história

Quando e como nasceram as Pastorais Sociais no Brasil? Elas surgiram na década de 70 por motivos muito claros. Na época, eram insuficientes os instrumentos de trabalho social na Igreja Católica para dar conta dos novos problemas que atingiam amplos setores da sociedade brasileira. Especificamente, povos indígenas e camponeses enfrentavam grandes desafios na Amazônia, região que o governo militar estava “integrando ao progresso nacional”. Para o governo, a Amazônia era um “território sem gente”, um “território virgem, sedento por ser possuído” e deveria “levar o progresso a essa região atrasada”.

A Igreja havia tido antes uma experiência extraordinária de ação social com o movimento chamado “Ação Católica”, que foi duramente perseguida nos anos mais intensos de repressão política no nosso país, a ponto de desaparecer. Lideranças foram afastadas e na Igreja se sentiu um grande vazio. Era pequena a correspondência entre os conteúdos do Ensino Social da Igreja e a realidade social e pastoral. A maior parte das ações de Pastoral Social se restringia à assistência às pessoas muito empobrecidas ou a trabalhos de promoção humana, como o que era praticado pela “Caritas”. Mas havia uma situação eclesial favorável.

O Concílio do Vaticano II (1962-1965) e a Conferência Episcopal Latino Americana dos Bispos em Medellín (1968) marcaram uma profunda mudança da Igreja, a partir de uma opção em favor dos pobres, dos Direitos Humanos e da Justiça. As Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s), surgidas sob inspiração do Concílio e do Encontro dos nossos Bispos em Medellín, foram o berço de onde surgiram muitas lideranças das pastorais sociais e dos movimentos sociais. Daí, muitos leigos e leigas, religiosos e religiosas, presbíteros e bispos assumiram um posicionamento profético que colocou em prática estas opções pastorais impulsionando e apoiando a Pastoral Social. Alguns pagaram com a própria vida essa busca de fidelidade a Jesus, visando uma “vida plena” para todos.

A primeira Pastoral Social, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), nasceu de um “Encontro de Pastoral da Amazônia”, realizado no mês de junho de 1975. Sua missão foi definida a partir das necessidades dos povos camponeses da região, ameaçados em relação ao seu direito à terra, vítimas de violência. Dois anos antes, um grupo de bispos se reuniu em São Paulo para analisar a realidade nacional e refletir sobre a sua responsabilidade pastoral naquela conjuntura. Decidiram formar grupos de pesquisa, estudo e elaboração de cinco documentos respectivamente sobre a realidade nordestina, o Centro-Oeste, a realidade indígena, o mundo do trabalho urbano, e o mundo acadêmico, os intelectuais e a segurança nacional.

A partir desse estudo, publicaram-se três pequenos documentos, que foram um marco na história da Igreja no Brasil, pois os bispos se posicionaram claramente em favor dos mais fracos e denunciaram as injustiças, em um momento em que o medo reinava na sociedade e não havia vozes na sociedade civil. São os documentos: “Eu Ouvi os Clamores do meu Povo”, de bispos e superiores religiosos do Nordeste; “Marginalização de um povo – o grito das igrejas”, de bispos do Centro-Oeste; e “Y-Juca-Pirama – o índio, aquele que deve morrer”, de bispos e missionários atuantes junto a povos indígenas.

Uma Pastoral Social não se faz somente com documentos, por mais lúcidos e proféticos que eles sejam. Por isso, a CPT se organizou em vários lugares do Brasil, realizando várias atividades, tais como a formação de lideranças cristãs no campo, o estudo e a divulgação de textos sobre a realidade agrária, a participação em organismos da sociedade civil em nome da Igreja, a elaboração de roteiros simples de reflexão para as comunidades rurais, encontros e assembleias, etc. Depois da CPT, foram surgindo outras pastorais sociais na década de 70 e 80.

Hoje, são consideradas Pastorais Sociais:

Pastoral Operária (PO);

Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM);

Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP);

Pastoral dos Nômades;

Pastoral Carcerária;

Pastoral da Saúde;

Pastoral da Mulher Marginalizada (PMM);

Pastoral do Povo da Rua;

Pastoral Afro-Brasileira;

Pastoral da Pessoa Idosa;

Pastoral da AIDS.

Em função da capilaridade das Pastorais Sociais, cabe à CNBB animar e articular estes diferentes serviços em âmbito nacional, compreendendo que as ações acontecem em diferentes ambientes e situações, onde se torna indispensável o discernimento urgente dos agentes.

A “Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade da Justiça e da Paz” da CNBB é constituída por estas Pastorais Sociais Específicas, acrescidas de Organismos, Pastorais da Mobilidade Humana e a Comissão do Mutirão pela Superação da Miséria e da Fome. Incluem-se nela a Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP); a Caritas Brasileira; o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Social (IBRADES); Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS), como também a Pastoral da Sobriedade, o Apostolado do Mar, a Pastoral Rodoviária/estrada, a Pastoral dos Refugiados e a do Turismo. Um leque de ação diversificado com muitas frentes.

Fundamentos religiosos das Pastorais Sociais

Em Mt 9, 35-38 se diz que Jesus percorria todas as cidades e aldeias. No caminho, encontrava “as multidões cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor”. Diante delas, Jesus sentia compaixão.

Aqui está o espírito de toda a ação social da Igreja, apontado na cartilha da CNBB: O que é Pastoral Social. Ela afirma que hoje, como no tempo de Jesus, as multidões dos pobres encontram-se “cansadas e abatidas”. Cansadas de tantas promessas não cumpridas, de tanta corrupção e de tanto lutar em vão: abatidas pelo peso da exclusão e da miséria, da fome e da doença, do abandono e do descaso. Hoje, como ontem, a injustiça e a desigualdade social geram milhares de empobrecidos que se tornam excluídos, quando não exterminados. Geram, ainda, desemprego, violência, dependência química, prostituição, racismo e destruição do meio ambiente. Essa situação atinge todo planeta, porém, de forma mais brutal os países subdesenvolvidos.

Nesse contexto social, o que significa a compaixão? Palavra composta de outras duas: “com-paixão”. Estar com na paixão do outro, na cruz do seu sofrimento. Sentir a dor do outro e, juntos, buscar soluções alternativas. Estar com, não significa dar coisas, mas dar-se. Dar o próprio tempo, colocar-se à disposição. Em síntese, significa caminhar junto com aquele que sofre. Assumir sua dor e tentar encontrar saídas para superar os momentos difíceis.

Perguntaram a determinada mulher a qual dos filhos ela mais amava. Ela, como mãe, respondeu: ao mais triste até que sorria, ao mais doente até que sare, ao mais distante até que volte, ao menor até que cresça.

Combinando a narração do evangelho com este caso, podemos dizer que Deus tem nome de Pai e coração de Mãe. O amor de Deus se estende a todos seus filhos e filhas. Todos e todas têm lugar em seu coração misericordioso e compassivo. Mas esse mesmo coração tem uma predileção especial pelos que sofrem. Aqueles que, por circunstâncias várias, encontram-se debilitados e abandonados terão um lugar especial no coração do pai e da mãe. Assim, as multidões “cansadas e abatidas” do Evangelho, como também a “ovelha perdida”, terão preferência no Reino de Deus. “Os últimos serão os primeiros” diz Jesus. Onde a vida encontra-se mais ameaçada, é aí que a presença de Deus adquire significação mais profunda. Esta é a razão primeira das Pastorais Sociais.

Traços comuns das Pastorais Sociais

As Pastorais Sociais tem como finalidade concretizar em ações sociais e específicas a solicitude da Igreja diante de situações reais de marginalização, para testemunhar o amor de Deus e colaborar na melhoria das condições de vida da população. Elas estão presentes em dioceses, paróquias e comunidades. Conforme o texto da CNBB, a dimensão sócio-transformadora da ação da Igreja é constituída de quatro aspectos complementares e indissociáveis: sensibilidade para com os fracos e indefesos, solidariedade frente a determinadas emergências, profetismo no combate à injustiça e espiritualidade libertadora. Eles também são os traços comuns das Pastorais Sociais. Vejamos cada um deles:

A sensibilidade traduz em um coração aberto a todo tipo de sofrimento, seja a cruz individual de cada pessoa humana, seja a cruz coletiva de grupos, setores e categorias inteiras submetidas à exclusão social. Trata-se de um coração que se contrai e se distende diante das alegrias e tristezas que o circundam. Assim, o toque amigo, uma palavra, uma visita ou um olhar traduzem esta sensibilidade.

A solidariedade concretiza-se na mão estendida às situações de emergência, de carência, de extrema pobreza e de fome. Não basta ser sensíveis. É preciso descruzar os braços, arregaçar as mangas e passar à ação. Um gesto, um mutirão ou uma campanha constituem expressões vivas da solidariedade. A solidariedade se expressa, também, no apoio às lutas e movimentos sociais por melhores condições e vida e trabalho.

O profetismo: em certa casa, cada vez que chovia, a família se mobilizava para colocar bacias e panelas embaixo das goteiras. Então, uma vizinha alertou: “Não adianta vocês fazerem isso. É preciso ajustar as telhas e trocar o madeirame, que está podre!”. Assim é profetismo, postura crítica diante de um sistema sócio-político-econômico que produz saber e riqueza, mas também exclui amplos setores da população. Não bastam a sensibilidade e solidariedade! É preciso analisar as causas da pobreza e das desigualdades sociais. E trabalhar pela conscientização e pela organização em vista da construção de uma sociedade humana, solidária e ecologicamente sustentável. A denúncia e o anúncio fazem parte deste aspecto da ação social da Igreja.

A espiritualidade libertadora é fonte e sustento da caminhada. Por meio dessa mística, os agentes das pastorais sociais se deixam interpelar, simultaneamente, pelo clamor concreto dos empobrecidos, e pelo chamado de Deus que, em seu íntimo, convida a uma ação libertadora, para participar na construção de um mundo novo.

Quem lida na área social, está submetido constantemente a muitas tensões. Surpreende-se, como Jesus, ao perceber que o Pai esconde certas coisas aos sábios e entendidos e as revela aos pequenos (Lc 10,21). Por outro lado, prova enormes decepções, ao se confrontar com o pecado e a miséria humana, presentes de forma própria nos pobres e excluídos. Enfrenta ainda incompreensão na própria família e na Igreja. E quando entra nos meandros do movimento social e da política, necessita da esperteza da serpente e do olhar sereno dos pássaros. Não é fácil. Somente uma espiritualidade constantemente alimentada pela Palavra de Deus e a oração sustentam os que atuam no campo social. Eles precisam da espiritualidade para manter a alegria, a esperança, certa serenidade e a paz de espírito. A espiritualidade integra e torna mais fecundas a sensibilidade, a solidariedade e o profetismo.

Conclusão aberta

As Pastorais Sociais são constituídas por Agentes de Pastoral que atuam fora do ambiente religioso da Igreja. Diferentemente da ação paroquial, que muitas vezes está voltada somente para os fiéis que já participam da comunidade eclesial, as Pastorais Sociais se relacionam com pessoas e grupos das mais diversas concepções religiosas, políticas e ideológicas. Essa presença para além dos limites da paróquia não faz delas uma pastoral menos cristãs, mas sim constituem o específico de sua atuação.

Muitas vezes, as Pastorais Sociais são acusadas de estarem promovendo uma politização inadequada da fé cristã e acirrarem os conflitos sociais. É verdade que nem sempre se consegue o equilíbrio entre a prudência e a coragem, a prática social transformadora e a mística. E nem todos os agentes de pastoral social demonstram igual maturidade humana e espiritual. Mas estes limites concretos não devem servir para desautorizar ou subestimar a importância destas pastorais para a sociedade e a missão evangelizadora da Igreja. Todo grupo humano tem dificuldades para realizar seu ideal. A proposta das Pastorais sociais está fundada no Evangelho e no desejo explícito do magistério da Igreja. Basta recordar a recente encíclica de Bento XVI, “Caritas in veritate”.

Porque tocam em questões sociais complexas, mexendo em interesses econômicos, sociais e políticos, é compreensível que as Pastorais Sociais sejam “causa de contradição” e não encontrem aprovação unânime no seio da própria Igreja. Por isso, elas estimulam a Igreja a viver a unidade na diversidade, a exercitar a tolerância e o espírito fraterno, para além de diferentes visões sobre a sociedade.

As paróquias e movimentos devem estimular algumas lideranças cristãs a tomarem parte nas Pastorais Sociais da Igreja. Trata-se de uma vocação, de um legítimo ministério, de um serviço ao mundo. É uma forma concreta se espalhar a luz do evangelho na sociedade, pela prática da caridade ativa, lúcida e imbuída de consciência social. Aqui acontece outra forma de visibilidade, que não se mede pela quantidade de gente arrebanhada em um estádio de futebol, e sim pela consciência que suscita em minorias multiplicadoras. Assim, de formas distintas, no trabalho paroquial e na ação social transformadora, se realiza o pedido de Jesus: “Brilhe assim a luz de vocês no mundo, para que as pessoas, vendo as suas boas obras, glorifiquem o Pai” (Mt 5,16).

Fonte: Setor Pastoral Social da CNBB, O que é Pastoral Social. Loyola, 2001, p.12.17-20. Para saber mais, acesse o site: www.cnbb.org.br

Ir. Afonso Murad é Doutor em Teologia, Professor e Escritor. Autor, entre outras obras de: “Gestão e Espiritualidade”, Paulinas.

Contato: amurad@marista.edu.br Blog: http://afonsomurad.blogspot.com

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