O balanço de todo dia

O balanço de todo dia

 POR FÁBIO CASTRO

 Todo mundo chega ao começo do ano com aquele gás maravilhoso, ainda mais se no seu caso, o fechamento do balanço anual mostrou-se promissor. Os números em azul – sejam os resultados financeiros ou de trabalhos pastorais – são como estrelas no céu e os relatórios de desempenho são dignos de ser apresentados em público? Considerando aqui uma situação ideal, infelizmente devemos pensar que as vitórias são celebrações fugazes, pois se a luta por um bom desempenho no ano, no semestre, no mês, não for empreendida todo dia, essa celebração azul pode mudar de cor e se transformar em dor de cabeça.

 Mas se o seu caso for o inverso, o início de ano é a continuidade de uma série de problemas, vejamos como trabalhar isso. Problemas de receita recorrentes, falta de pessoal competente, falhas nos processos organizacionais são coisas que estiveram ali durante todo o ano que se encerrou? Nem ao mar e nem à terra… sair celebrando os ótimos resultados, como se nada mais precisasse ser feito, ou se deprimir sobre os resultados ruins, como se nada mais pudesse ser feito, são extremos nada recomendáveis.

 A única pessoa capaz de dar um jeito nessa situação, seja ela excelente ou péssima, é você. Um estudo deve ser precedido de um plano de metas, planejamento estratégico que contemple várias formas de ação. E lembre-se, é preciso rever estratégias usuais todos os dias, pois o modelo que lhe serviu até o ano passado pode estar defasado neste ano. Delegar funções, conselho recorrente que vem dos melhores consultores de gestão, não quer dizer abandonar os processos. O “fiel” dessa temperança está em ter a visão panorâmica das suas atribuições e ter pessoas e processos competentes. Os estímulos diários com vistas a um fim de ano feliz emergem dessa visão e, certamente, farão bem à saúde financeira da Igreja, empresa, instituição ou até no âmbito pessoal.

 Dizem que se você colocar um sapo em uma vasilha com água fria e aquecê-la aos poucos, o sapo vai morrer cozido e impassível enquanto a água ferve, mas se ele for jogado em uma vasilha de água quente, imediatamente vai reagir e pular fora do ambiente inóspito. Trazendo a comparação para o âmbito da gestão, se os nossos resultados estiverem mornos, amenos ou quase parados, pode ser um prenúncio de risco e daí, é hora de tomar uma atitude. Entretanto, o gestor eclesial necessita de parâmetros para dimensionar suas atitudes para que sua instituição/organização não pereça. Esse detalhe justamente ilustra mostrando que é preciso investir na qualidade profissional, porque as gerências e coordenações devem postular sempre uma avaliação constante que desafia as novas propostas de gestão que surgem no mundo corporativo. E a Igreja não deve ficar de fora, deve investir.

 Todos sabem que não há um check-list único para estratégias de gestão, seja de igrejas ou empresas. Mas há alguns procedimentos que são como “soro caseiro”, ou seja: fáceis de preparar e servem para muitas situações de risco. Estabelecer parâmetros rotineiros de gerenciamento da saúde financeira da organização que está sob nossa responsabilidade é uma dessas receitas. Se no ano passado você não treinou sua equipe, não preparou as pessoas para as tarefas mais relevantes, não investiu em comunicação, não se adequou às necessidades de tecnologia, ora, aproprie-se de mais um “não” e não se comisere pelo que já passou. Conjugue cada uma das metas não realizadas no ano passado no gerúndio ou no máximo, na forma futura. Não olhe para trás, vislumbre seu horizonte e mãos à obra.

 Por isso, venho defendo uma postura nova de atuação na gestão eclesial, comumente, aderindo novos projetos para que a Igreja no Brasil possa instaurar novas atitudes diante das mais variadas formas de gerenciar as paróquias e institutos religiosos, eis um dos objetivos da Revista Paróquias. Nesse intuito, a experiência de fé, vivida e partilhada, é momento decisivo na hora de fundamentar seus propósitos em vista de levar a paróquia criar espaços que valorizem seus colaboradores diante das exigências cotidianas. Aliás, é em ritmo humanizador que a presença mística do sagrado envolve o ambiente de trabalho para fortalecer as decisões, os planos de ação, os projetos, as ideias, a evangelização, enfim, são momentos oportunos, Kairós, que despertam sabedoria para discernir o que é bom para a comunidade.

 Para qualquer processo administrativo o componente financeiro é o grande nó. Claro que sem recursos para tantos planos fica difícil avançar. Então vamos olhar a planilha orçamentária de maneira fria e calculista. Reveja cada item e reconsidere velhos hábitos de despesas, como por exemplo, o almoxarifado. Muitos de nós viemos de uma cultura da inflação, onde naqueles tempos era melhor pagar caro por um produto hoje do que pagar mais caro ainda amanhã. Então era comum nos lares e nas empresas, haver um espaço para estoque de produtos não perecíveis, como papel higiênico, detergente, material de limpeza e de escritório. Hoje não é mais preciso investir recursos nesse procedimento. Vale a pena fazer um levantamento de demanda, ver qual é o gasto mensal de cada um desses itens e desenvolver uma rotina de compra por período. Pense que o dinheiro sai da conta da instituição, mas que poderia estar aplicado, para ficar parado no estoque.  Tarifas bancárias são outro “ralo” por onde se esvaem muitos recursos. Você já se debruçou sobre o extrato bancário do mês para analisar cada um dos itens ali relacionados? Pode ter certeza de que muitas das tarifas poderiam ser eliminadas ou reduzidas, desde que negociadas com seu gerente.

 E redobre os cuidados com as “pegadinhas” de cobrança. Uma prática pouco ética, mas que há muito tempo está em uso é a emissão de um boleto bancário sobre um CNPJ e que é uma cobrança indevida, mas de aparência legítima. O seu profissional de contas a pagar é corretíssimo e logo efetua o pagamento, sem antes avaliar a procedência e a pertinência daquela cobrança. Para as pessoas que praticam esta ação desleal a vantagem é enorme e o risco é quase zero. Muitas delas não têm endereço fixo ou telefone e a gente fica sem saber onde reclamar. Portanto, muita atenção às cobranças bancárias que nos chegam pelo correio, pois sempre exigirão postura atenciosa de um funcionário bem treinado.

 Da mesma forma que há evasão de recursos em demandas até frugais, há outras que podem dar resultados efetivos e imediatos no controle de despesas e no meio ambiente. Falo de desperdícios de recursos diários, como um vazamento de água, o uso de copos descartáveis, a impressão indiscriminada de papéis e documentos, além de equipamentos e computadores permanentemente ligados.  Experimente implementar uma campanha que estimule as pessoas a racionalizarem o uso de água e energia elétrica, na empresa e em suas casas, estimule critério no uso dos copos descartáveis e na reciclagem de papel e sinta a diferença. Se a “contaminação do bem” for adotada por todos, é bem provável que o balanço pessoal e empresarial no final do mês, no semestre e no ano vão fechar no azul. Agora é você quem decide se seu final de 2010 será motivo de celebração ou preocupação. Hoje você tem ainda todo o ano pela frente para buscar novas metas e mudar sua história de forma positiva e grandiosa.

 Fábio Castro é Diretor Geral da Promocat Marketing Integrado.

Contato: fabio@promocat.com.br

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