Ensinar a ser “audiência”

Uma revolução para fora dos contornos clássicos, cujos agentes revolucionários multiplicam-se em “pixels”, “bits”, “twitters”, “blogs”… um glossário de novos termos, expressões idiomáticas repletas de anglicismos que no final, querem dizer que uma nova cultura está tragando a nossa e não há nada que se possa fazer, pois não é algo passível de impedir ou que tenhamos sido consultados. Mas é preciso refletir diante dessa revolução e esta é a proposta das páginas do livro  “Ser e comunicar, ética na comunicação”, uma compilação de artigos promovida por José Trasferetti e Ronaldo Zacharias, da Editora Santuário. Para este espaço de entrevista, trouxemos o professor José Trasferetti, para compartilhar os artigos. Ele, que é doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma (Itália), doutor em Teologia Moral pela Pontifícia Universidade Lateranense de Roma (Itália) e membro da Sociedade de Teologia e Estudos da Religião (SOTER), dentre outras.

 Qual é o conteúdo dessa publicação?

É uma coletânea de artigos provenientes de um Congresso da Sociedade Brasileira de Teologia Moral, realizado em 2007, em São Paulo. Os autores apresentam reflexões sobre essa nova ordem mundial, com o objetivo de questionar os elementos que vêm dos meios de comunicação e também do ambiente tecnológico”.

 Qual é o público-alvo da publicação?

O trabalho é dirigido especialmente a professores e pesquisadores que atuam na teologia moral, com foco na comunicação. Pode ser estendido a todos os profissionais que atuam diretamente nas frentes de comunicação e na área da educação, propriamente. Espera-se que o leitor reflita sobre seu papel como agente capaz de interferir no contexto onde atua, no sentido de estimular questionamentos da sociedade, em relação a essa nova conjuntura comunicacional pela qual estamos cada vez mais envolvidos. Seu contexto visa a discutir as relações éticas e as novas condições comunicativas, as novas tecnologias.

 A ética teve seus contornos alterados diante das novas tecnologias?

Não, ela não mudou,  foram as condições tecnológicas que mudaram. Esses novos comportamentos, o uso da internet, uso de celular, dos meios de tecnologia usados na área de educação, têm criado novos comportamentos que precisam ser pautados por uma conduta ética, que tem a ver com o ser humano.  No contexto das novas tecnologias o ser humano precisa se identificar como tal, não pode perder a sua identidade de ser humano.

 Dê exemplos dessas mudanças, por favor?

O namoro pela internet é cada vez mais recorrente, o relacionamento afetivo já pode ocorrer no âmbito virtual. Ensino a distância também é outra realidade. As pessoas estão se expressando no meio virtual. A relação entre pais e filhos, entretanto, também nesse caso, merece uma atenção especial. É preciso acompanhar as crianças e jovens em relação a esse novo ambiente. Mais do que a TV, que em dado momento exigiu essa mesma atenção, a internet abre brechas para interação, influências comportamentais, passa códigos e valores. Os pais precisam acompanhar seus filhos também nesse contexto. É preciso buscar equilíbrio.

 A televisão ainda tem um papel predominante na conduta social, apesar das novas mídias?

Certa vez cheguei a Porto Velho e onde desembarquei, eu tinha uma vista ampla da cidade. Por causa do calor, as casas estavam com suas portas abertas e eu pude observar que todas as TVs estavam sintonizadas no mesmo canal. Mas isso não mudaria se eu chegasse em outra cidade qualquer. Não faltam opções na TV,  mas falta discernimento do espectador.  No Brasil e países em desenvolvimento, é comum que a população seja levada por interesses imediatos. As pessoas vão na onda dos que falam mais alto ou têm melhor apelo de marketing. As mídias de comunicação manipulam a consciência das pessoas. Do outro lado, há um condicionamento coercitivo. Para enfrentar essa situação é preciso formação ética para escolher outras opções e atividades.

 As mensagens subliminares são uma ameaça?

As mensagens subliminares estão, a todo momento, vertendo das telas, desde a TV, passando pelo cinema e até o computador, enfim, nas mídias. Mesmo a pessoa com lucidez crítica pode acabar absorvendo códigos que não seriam interessantes para ela. A propaganda subliminar, mesmo que você fique atento, em algum momento, as cenas de violência vão fazendo a cabeça do povo. Veja TV para tomar ciência do que está ocorrendo, analise de forma crítica os seus conteúdos e discuta com o seu público o que está acontecendo. Peça a algum jornalista para contar em sua paróquia como se processa a indústria da notícia. Oriente as pessoas e no final, sugira: “Vá fazer um passeio, vá ler um livro…”

 O que vem primeiro, a mídia ou a escolha das pessoas?

Nós temos uma massa manipulável e esse fenômeno é recorrente nos países em desenvolvimento. Nos países europeus essa manipulação é menor. Essa massificação, portanto, nem sempre diz respeito às ofertas de programação, mas como o espectador não tem uma consciência formada, ele vai pelo caminho mais fácil. O gosto também é produzido, é criado por meio de hábitos. Por isso que é preciso trabalhar a educação do povo, para que se forme uma consciência crítica.

 E como se constrói essa consciência crítica?

Trabalhar a formação das pessoas, propiciando-lhes também,  discernimento moral. Precisamos trabalhar para formar uma sociedade esclarecida, um novo Iluminismo.  Os avanços tecnológicos  exigem maior qualificação das pessoas. Ensino a distância, as eleições, enfim, muita coisa já acontece no âmbito virtual, que é um caminho sem volta. É preciso promover essa evolução, entrar nesse ritmo de vida. Os avanços vão depender das iniciativas pensadas para formar pessoas nesse contexto. As igrejas, por exemplo, podem muito bem ter um conjunto de computadores  para dar cursos, para incluir as pessoas digitalmente, fazendo a sua parte para integrar o indivíduo nesse caminho. Aprender a utilizar esses meios é um papel da paróquia, um conjunto. As pessoas, os educadores, o papa, todo mundo precisa entender a rapidez dessas transformações, que já implicam na mudança de comportamentos. A educação católica, por sua abrangência, tem um papel importante nesse contexto, pois são essas frentes que vão denotar um resultado.

 Quem ganha com a promoção dessa consciência crítica?

Toda a sociedade! Uma sociedade que pretende se desenvolver nesse novo cenário não se beneficia com um pensamento único. ONG’s, sindicatos, partidos políticos, precisam buscar brechas, alternativas de ampliar a consciência dos indivíduos que fazem parte de seu contexto. É preciso buscar uma consciência crítica na sociedade. Considero que este deveria ser objeto de busca de todas as frentes da Igreja desse país. Os sindicatos, faculdades, por vezes se transformaram em ‘fábricas de diploma’, deixaram de lado a formação crítica, mas temos de parar para fazer essa reflexão e ter a atitude de iniciar um caminho de mudança. As pessoas precisam aprender a fazer suas escolhas.

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