Gestão contra a mortalidade infantil

Em entrevista exclusiva à Revista Paróquias & Casas Religiosas, número 4, janeiro/fevereiro de 2007, a Dra. Zilda Arns Neumann contou como consegue realizar os propósitos da Pastoral da Criança no Brasil, orquestrando 270 mil voluntários em 42 mil comunidades, voltados para um “público alvo” composto por 100 mil gestantes e dois milhões de crianças pobres menores de seis anos, ou seja, 1.450.000 famílias em 4.086 municípios, dos 5.500 existentes no país.

 “A maioria dos voluntários da Pastoral da Criança é composta por mulheres. São pessoas simples que vivem nas comunidades onde trabalham”, ressalta Dra. Zilda. Médica pediatra e sanitarista,  ela é fundadora e coordenadora nacional da Pastoral da Criança, organismo de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Dra. Zilda lembra que a idéia de criar a pastoral veio depois que seu irmão, o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, voltou de Genebra, na Suíça, e compartilhou com ela, uma conversa que havia tido com Mj. James Grant, que na época, era secretário executivo do Unicef. Ambos haviam participado de um debate sobre a miséria, na capital suíça, e em uma conversa, Grant sugeriu que a Igreja poderia fazer um trabalho para reverter a mortalidade infantil no Brasil.

 Em 1982, nascia a Pastoral da Criança a partir do projeto desenhado por Dra. Zilda, com o apoio do Unicef. Os números consolidados dos resultados obtidos hoje são surpreendentes. Em 2005, nas comunidades onde a pastoral atua, houve uma taxa de mortalidade infantil de 15 óbitos para cada 1.000 crianças nascidas vivas, contra a média nacional que é de 27,5 mortes para cada 1.000, segundo dados do IBGE (2003). “A parcimônia e o rigor administrativo têm de ser usados sempre, pois as dívidas são capazes de solapar qualquer projeto social. Temos convênios, mas às vezes temos de esperar a conclusão de documentos para que os recursos financeiros cheguem ao caixa da pastoral. Outro aspecto de suma importância é que para gerir esses recursos eu posso delegar as funções, mas jamais delego as responsabilidades”, define.

 Dra. Zilda lembra que no começo ela tinha uma simples caixa de sapatos, para guardar as notas fiscais das despesas e um caderno para anotar tudo. Há 20 anos o UNICEF lhe deu um computador e ela se viu diante do desafio de desvendar os mistérios da informática, hoje uma ferramenta das mais importantes para a realização de uma gestão eficiente, na sua opinião. “Não dá mais para a gente ter medo da tecnologia e nem do método para promover a gestão eficiente”.

 Mas zelar dos recursos humanos de um projeto também é crucial. “Trabalhamos com 99% de voluntários. É preciso capacitar muito bem esse pessoal, ter material que ajude nessa capacitação e promover encontros de motivação e capacitação. Sempre pergunto:” Quem de vocês é feliz na Pastoral da Criança?”  E todo mundo levanta a mão… cuidamos que os Recursos Humanos estejam estimulados”.

 A Pastoral da Criança conta também com uma ampla rede de comunicação de massa, composta por 2.217 emissoras de rádio e um jornal com tiragem de 270 mil exemplares mensais. A distribuição e leitura são levadas às comunidades.

 O trabalho permanente promove 1,5 milhão de visitas a famílias mensais. Há controle de anemia entre mulheres e crianças, cursos de alfabetização de adultos, para que suas ações criem raízes profundas, educação infantil e assistência a uma grande parte de adolescentes grávidas.

 Ao final da entrevista, Dra. Zilda deixou uma mensagem aos leitores da revista e, especialmente às mulheres gestoras que trabalham pela fé: “É uma função importante trabalharmos por unir com Deus e conversar com Deus sobre a nossa missão, para que a luz intima da nossa missão não se apague. Levar tudo muito a sério e aprender mais. A ciência e a religião se complementam, e podemos ter um resultado melhor em nossa missão. Ser honestos, organizados, somar os dons e os talentos, trabalhando em equipe e seguir a metodologia que Jesus ensinou. Ter uma equipe e ser muito transparente. Aplicar todos os recursos para os objetivos desses recursos e  ter planejamento e prestação de contas. A credibilidade em qualquer instituição é valiosa. A imagem da instituição não pode ser arranhada” .

 A liderança e a força de gestão de Dra. Zilda Arns Neumann rendeu-lhe reconhecimento mundial e quatro indicações do governo brasileiro ao Prêmio Nobel da Paz, em 2001, 2002, 2003 e 2005. A Pastoral da Criança é definida como entidade ecumênica e seu modelo de gestão já foi levado para países pobres da África e da América Latina.

 Pilares que dão sustentação à eficiência da Pastoral da Criança

 - Sistema de informação capaz de integrar toda a comunidade

- Sistema de acompanhamento e avaliação

- Relatórios mensais

- Programas para avaliar os resultados, com base em tecnologia

- Planejamento e controle das pastorais

- Rigor na identificação de falhas e atitudes imediatas de correção

- Estudar as leis

- Cumprir as leis

- Manter uma contabilidade organizada

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