O modelo cartesiano está intrínseco na teoria e prática do discurso do professor Nelson Senra, que em entrevista especialmente concedida à Revista Paróquias, discorre sobre a importância dos números para aqueles que trabalham para as massas.
Para que servem as estatísticas?
“As estatísticas conjugam saber e poder, tornando mundos distantes, mais próximos e presentes, pensáveis e por isso, “governáveis”. Os dados expressam o passado, são capazes de reformar o presente e influem no mover do futuro, quando são validados por políticas públicas, as quais venham a orientar. Pessoas, objetos e situações são trazidos à presença dos decisores, formatados em tabelas, gráficos e cartogramas, associados a estudos e análises.”
O senhor pode explicar por que o Censo tem um caráter de cidadania?
“Não apenas o Censo, mas todas as pesquisas estatísticas têm a ver com a Cidadania. Cada pessoa, ao saber mais de si e de seu contexto, tem melhor domínio de sua realidade. Isso lhe concede o poder de melhor reivindicar seus direitos e assumir mais verdadeiramente, seus deveres. Da parte de quem faz a pesquisa, quando realizamos um censo, mobilizamos todo mundo. Em suma, toda a população, por si e em sociedade é arrolada, além de contemplar sua inteira complexidade. O extrato disso é revelado em algumas folhas de papel, de modo a permitir que ações sejam promovidas e estimuladas a partir de discursos de verdade, onde letras cedem espaço aos números.”
E a quem servem esses números quando se expressam?
“Os números interessam a todos que agem sobre o coletivo. Pois que este é o caso dos párocos e em relação ao Censo da Igreja. E considero que todos, ao agirem sobre seus ‘rebanhos’, antes de tomar decisões, deveriam averiguar as configurações conjunturais. Para ser mais claro, é preciso saber o perfil dos paroquianos, para que seja possível uma leitura dos resultados e com isso, obter definições em relação às carências e potencialidades. Isso igualmente às políticas estabelecidas pelos governos sobre ações voltadas às coletividades. Os párocos poderiam elaborar suas políticas pastorais pautados nas mesmas fontes. Por exemplo, saber que entre os paroquianos predomina uma população jovem pode levar a uma intensificação da Pastoral da Juventude. Se a paróquia está diante de uma comunidade pobre, pode se aperceber que o dízimo, se houver, será pequeno.”
Quais seriam os caminhos para obtenção de dados em tal detalhamento?
“Os dados podem ser obtidos a partir de resultados municipais, e que a consulta ao portal do IBGE, como a ‘Pesquisa de Informações Básicas Municipais’, por exemplo, podem ser de grande valia para cada paróquia deste país. Para melhor configurar as paróquias, é possível fazer uma solicitação específica ao IBGE.”
O senhor poderia mencionar alguns organismos internacionais que vão beber desta mesma fonte, no caso, o IBGE?
Eu diria que todos, com realce ao Banco Mundial, ao Fundo Monetário Internacional, a Unesco, a OIT (Organização Internacional do Trabalho), Organização Mundial da Saúde (OMS) e etc. Nenhum deles age antes de analisar as estatísticas. Como é sempre muito difícil juntar estatísticas que tenham sido produzidas por metodologias diferentes, esses organismos internacionais vêm se empenhando em ajudar na definição de modernas metodologias, não raro auxiliando até mesmo, órgãos nacionais de estatísticas a se aprimorarem.
O senhor tem um trabalho amplo de pesquisa histórica sobre pesquisa social. Poderia destacar algum, em especial?
“O primeiro país a regularizar a elaboração dos censos foram os Estados Unidos, a partir de 1780, lembrando que sua independência data de 1776. Mas falar de censo, que fique claro que se traduza em fazer pesquisa estatística onde toda a população e também suas ‘coisas’, são investigadas. O contraponto disso é a amostragem, onde apenas uma fração do todo é investigada, ou pesquisada, servindo de parâmetro para análise do universo que é o objeto de interesse e averiguação”.
Então, o senhor conseguiria sintetizar o maior valor das pesquisas e estatísticas para o país?
Como síntese, podemos fazer coro com o idealizador e fundados do IBGE, Mário Augusto Teixeira de Freitas: “Faça o Brasil a estatística que deve ter, e a estatística fará o Brasil como deve ser”.














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