Sustentabilidade premente

SUSTENTABILIDADE PREMENTE 

 A palavra de Aerton Paiva, como entrevistado  da Revista Paróquias & Casas Religiosas, vem permeada de uma teoria muitas vezes versada, mas raramente praticada, quando o mote é “sustentabilidade”. Ele que preside a APEL, uma empresa de consultoria de projetos e que tem na carteira de clientes, algumas das mais importantes organizações do país, tanto na área financeira, como de produtos e serviços, apoia-se em sua formação de sociólogo para imprimir um outro olhar sobre o cenário corporativo.

 Está na moda colocar a palavra “sustentabilidade” no glossário corporativo? Por quê?

Não creio que seja uma questão de ‘moda’, mas uma questão necessária e a percepção desta realidade começa a ganhar evidência. As mudanças promovidas na cultura ao redor desse tema são evidentes. O tema sustentabilidade está em pauta em boa parte das grandes empresas, já é sendo discutido nos patamares diretivos médias empresas, sendo um marcador de interesse junto às pequenas. Mas o  fato que considero mais relevante nisso tudo é que o termo ‘desenvolvimento sustentável’ para mim, soa como uma idiossincrasia, pois se pensarmos em outra forma de desenvolvimento, este não terá sentido, já que ele será finito e não estaremos aqui por muito tempo para receber os benefícios dele.

 O modelo organizacional brasileiro já  comporta esse conceito e, principalmente, os custos de implantação?

De fato, os investidores, de forma global, e em especial os brasileiros, ainda não consideram a sustentabilidade como oportunidades e riscos de capital. As experiências da consultoria, entretanto, apontam para uma tendência crescente nessa direção, pautando as relações das empresas com todo o ambiente em seu entorno, implicando envolvimento com funcionários, fornecedores, consumidores e, claro, investidores.  Em relação aos custos de implantação, temos um projeto em vigor que consiste na criação de grupos de trabalho para empresas que inseriram o desenvolvimento sustentável como eixo principal de suas estratégias. Esses grupos trabalham a partir da identificação de temas críticos da sustentabilidade em seus negócios (como água, energia, resíduos, inclusão social, etc), desenvolvendo critérios aprofundados de avaliação de impactos. Depois da aplicação das avaliações em cada realidade, são desenvolvidas soluções compartilhadas, para aplicação e acompanhamento, sob o ponto de vista dos resultados quantificáveis. Os produtos desses trabalhos hoje são amplamente compartilhados e divulgados a todas as empresas interessadas.

 Há quanto tempo esse trabalho vem sendo desenvolvido e para quais empresas?

Faz quatro anos que trabalho a partir da premissa de desenvolvimento sustentável encravada no escopo de um projeto de Planejamento Estratégico. Passamos a praticar a teoria de que o conceito “sustentabilidade” era o componente aglutinador de premissas e em direção à competência de gestão. O cliente  é  o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, cujo “case” se transformou em uma parceria que hoje apresenta resultados tangíveis e que, melhor que isso, acabou por definir os contornos de uma estratégia que cabe em qualquer empreendimento ou projeto.

O dia-a-dia e a competitividade de um mercado cada vez mais difícil consegue aportar mais um item para ser trabalhado? Isso não sobrecarregaria ainda mais, empresas de serviços, por exemplo?

Muitos dos estudos e projetos já realizados pela APEL mostram que a sustentabilidade tem, em sua essência, a busca pela eficiência. Ela aumenta a eficiência e melhora os resultados para todo o sistema, quando esse conceito simples é aplicado, da maximização dos resultados para todas as partes. Por exemplo, a insustentabilidade ambiental aumenta os custos de matérias-primas no longo prazo, eleva a geração de resíduos e lixo apresentam custos elevados no orçamento corporativo, para serem movimentados e tratados no campo dos seus impactos. Multiplicado em cadeia, essa elevação é ressentida no custo mundial, no custo do país e, claro, no custo empresa. A decisão de implantar um modelo que reduza o consumo de água potável ou se estabeleça critérios para o consumo de energia elétrica, pela necessidade de atender a padrões de sustentabilidade, costumam gerar mais adesão na empresa do que, simplesmente, reduzir custos fixos. 

 E quais seriam as premissas de aplicação?

Inovar no olhar é compreender a realidade sistêmica na qual a empresa ou organização está inserida, analisar quais são suas demandas e impactos sofridos/gerados no seu relacionamento com a sociedade de forma direta ou indireta. Acima de tudo, é entender os componentes do processo, como uma extensão da própria organização, como um todo indissociável. Somos produto desta mesma natureza que, lentamente, vem nos mostrando que nossa insularidade sistêmica não levará a sociedade muito adiante. A biomimética tem trazido exemplos interessantes que nos permitem reproduzir, no universo humano, a engenharia das conexões naturais. As empresas, quando concebem seus produtos com foco na sustentabilidade, logo observam que o segredo para o ciclo “do berço ao túmulo” passa, invariavelmente, por garantir que todo movimento externo de seu sistema produtivo, seja trazer para dentro da organização componentes de outros sistemas ou de outras empresas.

 E como é que se conquista, por exemplo, a adesão dos funcionários, parceiros, prestadores de serviços, etc?

Existem muitas formas: primeiramente devemos entender cada funcionário como um indivíduo social, um cidadão. Neste campo, toda e qualquer pequena ação contribui, em casa, na rua, no trabalho, tais como apagar as luzes, utilizar menos água, dar carona, reciclar o lixo, etc. A sustentabilidade é um trabalho gigantesco mas também é – necessariamente – feito por formigas. Ninguém é suficientemente representativo par ser o único ou um dos poucos responsáveis, dado que todos nós, pessoas, empresas e governos, somos sempre uma parcela pequena do todo. A somatória das nossas atitudes dará o volume que vai fazer a diferença, globalmente.

 O senhor pode citar uma empresa que seja um exemplo, no quesito sustentabilidade?

Costumo dizer que não há e nunca houve uma empresa inteiramente insustentável, assim como não há, e talvez nunca haverá, uma empresa integralmente sustentável. A sustentabilidade é um processo permanente de descobertas de novas demandas, de introdução de novas lentes de observação do contexto, de adoção de novas tecnologias, processos, comportamentos e atitudes.

 Então ela faria parte de um processo de renovação?

Não há como inovar na ação sem que haja um olhar sobre o todo. O fato é que este processo exige do gestor, a compreensão das conexões sistêmicas e o fato de haver o envolvimento de muitos atores muitos componentes. A real vontade de fazer algo deve ser, em essência, diferente de tudo o que fizemos até então, mas que expresse tal diferença de forma que a eficiência seja evolutiva em todas as direções, que seja boa para as organizações para o meio ambiente e para a sociedade .

 

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