Novos rumos, novas propostas

Promova uma catequese voltada para o espírito inovador da juventude

POR PE. PAULO F. DALLA-DÉA

 Muitas pessoas reclamam e lamentam sobre a catequese de crisma. E mais ainda sobre os adolescentes, dizendo que não querem nada com a Igreja e com a religião. Nada mais falso, todas as pesquisas feitas têm demonstrado que eles nunca foram tão religiosos como agora. Mas, então, o que anda acontecendo? Por que a nossa pastoral com eles está tão longe do que deveria ser?

Mesmo sendo tão religiosos, parece que há aqui um problema mais nosso do que deles. Algo parecido ocorre na escola. Igreja e escola são duas instituições que têm muita dificuldade de se adaptar aos novos tempos e de se reinventar.

 Exemplos

A teologia e a catequese precisam dialogar com as pessoas de seu tempo. Nada adianta uma teologia e uma catequese que conversem com pessoas de 100 anos atrás: elas já morreram – e no paraíso – já resolveram suas dúvidas existenciais e de fé. Catequese e teologia servem para a vida humana e não para a morte. Depois da morte, teremos resolvidos todos os problemas e tudo será apenas festa com a Trindade e com os que estarão salvos.

Quando fiz o meu mestrado, fui pesquisar o projeto que a Igreja Católica tem para os crismandos e jovens. E pesquisando documentos, declarações e outros textos, descobri que ela não tem nenhum projeto de trabalho concreto para os crismandos. Nem antes, nem depois da crisma. Aliás, o discurso para depois da crisma é muito vago: fala sobre ser soldado de Cristo e sobre ser testemunha dele. Nada mais concreto. Muito vago e sem vida. Não me espanta que não consiga ecoar no coração e na vida dos adolescentes. Nem me espanta que a catequese de crisma se resuma, em muitos lugares, a “aulas de reforço da catequese de primeira comunhão”.

 Atenção

Existe um problema maior do que falta de projeto (antes, durante e depois da crisma). É o erro de linguagem. A linguagem é tudo em uma comunicação, sem ela ou com ela de forma errada, geramos erros grosseiros e incomunicações gigantescas.  É o que vem acontecendo com a nossa catequese de crisma. Se as crianças se dão bem com uma catequista que pode parecer a avozinha deles, com os adolescentes a coisa é bem diferente. Eles falam e pensam bem diferente dos seus pais e avós. Para ser catequista de crisma, além de espiritualidade, de conteúdo e de participação eclesial, é preciso também ter até 30 anos, ou menos. Mais do que isto é arriscado falar uma língua que ninguém entende. E arrisca-se a ficar com cara de “avozão” de todos, sem ser entendido por eles.

 Na verdade, para trabalhar com adolescentes, é preciso gostar para falar a língua deles. Quando fui estudar gíria, descobri algo bem interessante: este estilo de linguagem integra com mais força os membros de um grupo, enquanto exclui todos os outros membros. Se você tem dificuldade para entender ORKUT, MSN, SMS, FACEBOOK, letras de músicas nacionais, internetês e outras coisas normais da linguagem adolescente hoje, você já pode ser considerado excluído da cultura deles. Um excluído consegue dar catequese para o grupo? Claro que não. Veja só como estamos falando uma linguagem que não é a deles e que eles não vão entender.

 Novas posturas

Tenho mostrado aos catequistas como dar catequese usando a literatura e o cinema que eles tanto gostam.  Não adianta demonizar a cultura deles, afirmando que a música é demoníaca, que o cinema faz mal, que a propaganda é nefasta, que a sexualidade é proibida, que o consumismo é mal, que as drogas são más, etc. É preciso mais do que isso se você quiser trabalhar com eles hoje. Esse discurso de proibir e de demonizar poderia funcionar na década de 50, depois disso, faliu de vez. E saudade desse discurso não resolve nada. Sejamos realistas e trabalhemos com as coisas deles, a partir do ponto de vista do evangelho e da proposta de Jesus, o Cristo.

Esse é outro erro normal na catequese de adolescentes. Muitos catequistas querem “trazer” os adolescentes para a Igreja, sem se lembrar que antes, eles precisam estar apaixonados pela pessoa e pela proposta de Jesus.

 4 elementos importantes para uma catequese renovada

1. Ajude o jovem fazer a experiência de ser um grupo eclesial que funciona, reza, atua e vive a proposta do Evangelho;

2. Promova que a catequese de crisma saia das “aulas” para experimentar um processo novo;

3. Trabalhe a catequese a partir de retiros;

4. Leia a Bíblia e viva o Evangelho, fazendo experiências de partilhas e de vida comunitária.

 3 problemas principais com relação à catequese de crisma

1. A falta de projeto de pós-crisma;

2. Os erros de linguagem;

3. Falta de alvo tentando levar os adolescentes para a Igreja, sem antes cativar para o Cristo.

 Catequese sem projeto, sem linguagem adequada e sem evangelização, não funcionará e nem atrairá a atenção de nossos adolescentes. E não adianta se esconder detrás do livro de catequese. Teremos como resultado apenas indisciplina, conversas paralelas e risinhos debochados. Eles vão representar que aprenderam algo só para acabar logo com a tortura de ficar em uma catequese chata, escolar e que não fala nada para a vida deles.  Se você está enfrentando essa realidade, pare e pense: você não vai mudar os adolescentes e nem a cultura deles a partir de fora. É preciso que você entenda-os, ame-os e mude-se. Sem isso, que em linguagem teológica se chama conversão e se exige antes do missionário, você não colherá nenhum fruto.

Pe. Paulo F. Dalla-Déa é Presbítero diocesano da Diocese de São Carlos – SP. Mestre em Teologia Pastoral  e Doutor em Religião e Educação pela Escola Superior de Teologia de São Leopoldo – RS, com tese em catequese de crisma. Trabalha com catequese e atualmente é responsável pela catequese de crisma da Diocese e membro da Coordenadoria Diocesana de Pastoral.

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