Preserve os bens sagrados com orientação profissional
POR CLAUDIO TORRES
Todo debate acerca da preservação do patrimônio histórico e cultural, em particular do patrimônio edificado, suscita, invariavelmente, o questionamento do por quê preservar. Encontramos sempre duas respostas distintas, embora quase sempre indissociáveis: Economia e Memória.
ECONOMIA
A visão econômica, essencialmente materialista e pragmática, defende o preservar tanto as edificações isoladamente, assim como o tecido urbano, como forma de evitar o desperdício da grande quantidade de energia despendida e acumulada na confecção desses empreendimentos. Edifícios, ruas, praças e equipamentos urbanos, consumiram quantidades abissais de energia e recursos ao longo do tempo, por meio da movimentação, manipulação e transformação de matéria-prima pelo esforço e intelecto humanos. Sem políticas e culturas de preservação e manutenção do patrimônio edificado e ambiental que assegurem retardar o processo natural de fadiga e degradação dos materiais, ou mesmo o induzido pelo mau uso, como gerar recursos a curtos prazos de gerações para uma recomposição integral de nosso entorno?
O entendimento de que é possível restaurar e manter a custos mais baixos que demolir e reconstruir, seja em um sentido individual ou macro, vem ganhando corpo mais recentemente.
Políticas de incentivos fiscais e de concessões construtivas têm sido criadas para zonas urbanas de proteção especial, no intuito de atrair e direcionar o capital especulativo para programas de restauração. Gradativamente, percebe-se uma nova consciência preservacionista que vem desmistificando a ideia propalada que a aplicação de dispositivos de salvaguarda como o tombamento, por exemplo, promovem a estagnação dos processos de criação e circulação de bens e serviços.
MEMÓRIA
A visão do patrimônio como memória social, como herança paterna, no sentido etimológico da palavra, mais romântica e transcendente, interpreta o bem em todos os seus aspectos tangíveis e intangíveis, enquanto obra concreta, de referências urbanas estéticas, históricas e afetivas da comunidade a que pertence. Afere a construção por seu valor antropológico, mais que pelo interesse financeiro e mesmo artístico, muitas vezes.
Esse aspecto de integração ao presente de um passado não extinto, mas vivo e que se funde ao cotidiano das pessoas, é que forma a base do pensamento que milita nos meios preservacionistas. Se o presente é fruto de todas as experiências ancestrais, o passado não passou, mas é experimentado e agregado continuamente. Também as edificações não são imutáveis, mas a soma de todas as intervenções humanas e manifestações naturais ocorridas nesse curso ininterrupto, o que induz a um mais amplo questionamento: o da autenticidade das intervenções de restauro. O próprio ato de restaurar para preservar já é em si uma intervenção no bem que produz o paradoxo de adulteração do estado genuíno. Além disso, em qual época podemos considerar uma edificação efetivamente original, se ao recompô-la, mesmo que ao seu estado primeiro de construção, estaríamos privando-a de muitas histórias incorporadas e doravante não mais transmitidas?
Há muitas e diversas autenticidades inerentes a um mesmo bem edificado: quanto à sua forma e volumetria, os materiais utilizados, processos construtivos adotados, localização, contextualização, dentre outras. Qualquer projeto que vise o restauro como forma de preservação de uma edificação, deverá, em conformidade às determinações ditadas pelos documentos de intenções e cartas patrimoniais, locais e internacionais, avaliar e definir quais os parâmetros técnicos e antropológicos a serem adotados. Será necessário definir o que, primordialmente, se pretende preservar.
O trabalho, portanto, requer pesquisa, conhecimentos e técnicas específicas de profissionais habilitados. O fator custo é o principal problema enfrentado para a disseminação dessa nova filosofia preservacionista. Quer a motivação ao restauro de um bem seja de cunho sentimental ou funcional, o empreendimento será norteado pelos recursos disponíveis. O foco principal do restaurador, nesse contexto, se concentra em não incorrer em meras reformas desordenadas e destituídas de estudo científico.
O PATRIMÔNIO ECLESIÁSTICO E A TRADIÇÃO
Em particular, as construções eclesiásticas requerem, por vezes, alterações internas na composição do espaço devidas a atualizações de ordem litúrgica, o que agrega um novo componente à discussão sobre a autenticidade e um nível de especialização mais elevado nessas intervenções. A Igreja se preocupa marcantemente com o tema desde o Vaticano II e, mais recentemente, com o advento da “Carta de Vila Vigoni” sobre a preservação dos bens eclesiásticos, e da instituição da Pontifícia Comissão para os Bens Culturais. O Papa João Paulo II, em discurso à Assembleia Plenária da Comissão em março de 2000, deixou-nos de forma clara essa visão: “…não deve causar admiração o fato de as Igrejas particulares se empenharem em promover a conservação do próprio patrimônio artístico-cultural, através de intervenções ordinárias e extraordinárias, que lhe consentem a plena valorização. A Igreja não é só guardiã do seu passado; ela é sobretudo animadora do presente da comunidade humana, em vista da edificação do seu futuro”.
“A comunidade católica e a comunidade civil devem por isso sentir a grave responsabilidade de conhecer, guardar, valorizar e transmitir às gerações futuras toda a preciosa herança que lhe foi temporariamente confiada. A Igreja Católica, em particular, deve considerar os bens culturais religiosos como fonte primária da sua atividade pastoral para a reevangelização do mundo contemporâneo.” (Carta de Vila Vigoni)
Claudio Torres é Engenheiro Civil Especialista em Restauro e Preservação do Patrimônio, com ênfase em Arquitetura Religiosa e Pós-Graduado em Teologia. Atua como assessor para diversas congregações religiosas há mais de duas décadas em projetos civis e litúrgicos, obras e gestão do patrimônio.
Site: www.claudiotorres.com
e-mail: engenheiro@claudiotorres.com
Edição 20 setembro/outubro 2009














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