Comunicação Visual

    Perceba a riqueza da mística revelada pelas Sagradas Escrituras nos ícones

POR FREI FLÁVIO HENRIQUE, PMPN

Antes do Princípio, a Palavra gerada pelo Pai – e não criada – exprimiu no seio da Trindade a vontade criadora. Deus é Autor do princípio e não parte dele. Ora, a Palavra consubstancial, isto é, existente em si mesma, é somente boa, porque tudo que vem de Deus é bom. De modo semelhante, a palavra humana – ad intraad extra – é o principal mecanismo do entendimento. A palavra organiza o desejo, a vontade, etc. No âmago da inteligência a palavra ad intra (pensamento) é o salto do instinto para a reflexão, dando ao homem a possibilidade de fazer escolhas de modo diferente de todas as demais criaturas. Se o homem diz em seu íntimo: quero algo que me faça feliz sem que isto prejudique alguém… realizará o bem, faça o que fizer. Se, ao contrário, diz no silêncio de sua consciência: quero algo que me faça “feliz”, independente das consequências… eis o mal.

A palavra exprime os sabores e horrores dentro e fora do homem. Nas inscrições rudimentares na era das cavernas encontramos estes registros em forma de palavras-símbolos. Ao longo da história a linguagem aprimorou. O mecanismo interno da inteligência – criada para desenvolver-se – elaborou códigos fonéticos e gráficos para externar a palavra interna: eis a língua falada dosvários povos e a língua escrita, “inventada” pelos fenícios. O hebraico, igualmente semítico, reserva a Deus sons diferentes daqueles que utiliza para fala doshomens. Aoregistrar na forma de Escritura o dizer de Deus, usa, por exemplo, o som barah para indicar que o puro ato do dizer de Deus realiza, gera, cria, infunde, transforma… “Deus disse: ‘Faça-se [barah] a luz!’ E a luz foi feita” (Gn 1, 2).

O Verbo

Esta Palavra criadora de Deus, antes invisível e sem forma, veio ao mundo: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14). Até este evento a Lei não podia permitir retratar Deus, senão por forma escrita, abominando a forma imagética. Ora, sendo Deus Espírito puro, sem forma material, não poderia ser retratado. Logo, imagens e pinturas – que retratassem o irretratável – não era apenas paganismo, mas uma ignorância sem sentido: como dar forma ao que é informe?

O Novo Testamento, contudo, deu-nos a conhecer o Eikon, isto é, a Verdadeira Imagem de Deus: “Aquele que me viu, viu também o Pai… Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai. Não credes que estou no Pai, e o Pai está em mim?” (Jo 14, 9-10a). Se vemos o Pai por meio do Filho que é retratável, então, é possível fazer a imagem teológica (EIKON) de Deus. A Iconografia Bizantina é, pois, uma pérola do conhecimento cristão. O Inacessível Se tornou em medida teológica – Acessível. O Invisível deixou-Se ver. Eis o Mistério da Verdadeira Fé a nos ensina que podemos retratar a imagem de Deus na Pessoa do Filho Único. Mais que isto. Posto que Ele mesmo quis tornar-Se mais próximo e conhecido de nós, revelando um RostoHumano, a iconografia é um dever catequético no anúncio da Boa Nova. Isto é um fato, não uma proposição. Qualquer princípio de fé dito cristão que nega, desconsidera ou combate este fato, é, de per si, irracional e, por conseguinte, contrário à verdade.

A Arte Sacra Bizantina goza do status de ser a primeira da História do Cristianismo. Em razão disto dizemos que os Ícones são a comunicação visual das Sagradas Escrituras ou, no dizer de São Basílio: “o ícone é a Bíblia dos que não sabem ler”. Agora, na era da comunicação visual, atrevo a dizer, parafraseando o Doutor Capadócio, com necessário ajuste contextual: o Ícone deve tornar-se a Sagrada Escritura para aqueles que, embora alfabetizados, leem, equivocadamente, a Revelação Divina contida no Livro Santo. Isto se pode afirmar porque, a iconografia, exprime com cores o que as Escrituras Sagradas exprimem com letras, conforme ensinavam os Santos Padres.

Conclusão

O Ícone é hoje – talvez mais que antes – uma possibilidade catequética condizente com a Verdadeira Fé. Em uma época midiática, onde todos os componentes subliminares arrastam para o erro o homem – que vagueia de uma modernidade cambaleante para uma pós-modernidade quedante – o Ícone, é muito mais que uma Bela Arte Sacra. É mais que uma imagem devocional. É enfim a expressão da Doutrina Correta ensinada bi milenarmente pela Única Igreja Fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho Único de Deus Pai, o Eikondo Deus Vivo e Verdadeiro, Criador do Céu (das realidades imateriais) e da Terra (das realidades materiais). Em uma frase: o Ícone, na era da comunicação visual, é a mais potente forma de expressão das Sagradas Escrituras.

Observação: as várias palavras grafadas em maiúsculo no meio das frases remontam ao antigo costume de dar ênfase proposital àquilo que se compreende na esfera do Verdadeiro Sagrado.

Frei Flávio Henrique, pmPN é Sacerdote da  Obra dos Pequenos Monges do Pater Noster, Mosteiro São Charbel, Juiz de Fora/MG.

Contato: freiflaviohenriquepn@hotmail.com

Post Tagged with ,